No outro dia bem cedo o herói padecendo saudades de Ci a companheira pra sempre inesquecível, furou o beiço inferior e fez da muiraquitã um tembetá. Sentiu que ia chorar. Chamou depressa os manos, se despediu das icamiabas e partiu.
Gauderiaram gauderiaram por todos aqueles matos sobre os quais Macunaíma imperava agora. Por toda a parte ele recebia homenagens e era sempre acompanhado pelo séquito de araras vermelhas e jandaias. Nas noites de amargura ele trepava num açaizeiro de frutas roxas como a alma dele e contemplava no céu a figura faceira de Ci. "Marvada!" que ele gemia... Então ficava muito sofrendo, muito! e invocava os deuses bons cantando cânticos de longa duração.. .
Rudá, Rudá!...
Tu que secas as chuvas, Faz com que os ventos do oceano Desembestem por minha terra Pra que as nuvens vão-se embora E a minha marvada brilhe Limpinha e firme no céu!. . .
Faz com que amansem Todas as águas dos rios Pra que eu me banhando neles Possa brincar com a marvada Refletida no espelho das águas!...
Assim. Então descia e chorava encostado no ombro de Maanape. Jiguê soluçando de pena animava o togo da caieira pra que o herói não sentisse frio. Maanape engulia as lágrimas, invocando o Acutipuru o Murucututu o Ducucu, todos esses donos do sono em acalantos assim: Acutipuru, Empresta vosso sono Pra Macunaíma Que é muito manhoso!...
Catava os carrapatos do herói e o acalmava balanceando o corpo. O herói acalmava acalmava e adormecia bem.
No outro dia os três estradeiros recomeçavam a caminhada através dos matos misteriosos. E Macunaíma era sempre seguido pelo séquito de araras vermelhas e jandaias.
Caminhando caminhando, uma feita em que a arraiada principiava enxotando a escureza da noite, escutaram longe um lamento de moça. Foram ver. Andaram légua e meia e encontraram uma cascata chorando sem parada. Macunaíma perguntou pra cascata: - Que é isso! - Chouriço! - Conta o que é.
E a cascata contou o que tinha sucedido pra ela.
- Não vê que chamo Naipi e sou filha do tuxaua Mexô-Mexoitiqui nome que na minha fala quer dizer Engatinha-Engatinha. Eu era uma boniteza de cunhatã e todos os tuxauas vizinhos desejavam dormir na minha rede e provar meu corpo mais molengo que embirossu. Porém quando algum vinha eu dava dentadas e pontapés por amor de experimentar a força dele. E todos não agüentavam e partiam sorumbáticos.
Minha tribo era escrava da boiúna Capei que morava num covão em companhia das saúvas. Sempre no tempo em que os ipês de beira-rio se amarelavam de flores a boiúna vinha na taba escolher a cunha virgem que ia dormir com ela na socava cheia de esqueletos.
Quando meu corpo chorou sangue pedindo força de homem pra servir, a suinara cantou manhãzinha nas jarinas de meu tejupá, veio Capei e me escolheu. Os ipês de beira-rio relampeavam de amarelo e todas as flores caíram nos ombros soluçando do moço Titçatê guerreiro de meu pai. A tristura talqualmente correição de sacassaia viera na taba e devorara até o silêncio.
Quando o pajé velho tirou a noite do buraco outra vez, Titçatê ajuntou as florzinhas perto dele e veio com elas pra rede da minha última noite livre. Então mordi Titçatê.
O sangue espirrou na munheca mordida porém o moço não fez caso não, gemeu de raiva amando, me encheu a boca de flores que não pude mais morder. Titçatê pulou na rede e Naipi serviu Titçatê.
Depois que brincamos feito doidos entre sangue escorrendo e as florzinhas de ipê, meu vencedor me carregou no ombro me jogou na ipeigara abicada num esconderijo de aturiás e flechou pro largo rio Zangado, fugindo da boiúna.
No outro dia quando o pajé velho guardou a noite no buraco outra vez, Capei foi me buscar e encontrou a rede sangrando vazia. Deu um urro e deitou correndo em busca nossa. Vinha vindo vinha vindo, a gente escutava o urro dela perto, mais perto pertinho e afinal as águas do rio Zangado empinaram com o corpo da boiúna ali.
Titçatê não podia mais remar desfalecido, sangrando sempre com a mordida na munheca. Por isso que não pudemos fugir. Capei me prendeu, me revirou, fez a sorte do ovo em mim, deu certo e a boiúna viu que eu já servira Titçatê.
Quis acabar com o mundo de raiva tamanha, não sei... me virou nesta pedra e atirou Titçatê na praia do rio, transformado numa planta. É aquela uma que está lá, lá em baixo, lá! É aquele mururê tão lindo que se enxerga, bracejando n'água pra mim. As flores roxas dele são os pingos de sangue da mordida, que meu frio de cascata regelou.
Capei mora em baixo de mim, examinando sempre si fui mesmo brincada pelo moço. Fui sim e passarei chorando nesta pedra até o fim do que não tem fim, mágoas de não servir mais o meu guerreiro T’çatê... Parou. O choro pingava nos joelhos de Macunaíma e ele soluçou tremido.
- Si... si... si a boiúna aparecesse eu... eu matava ela! Então se escutou um urro guaçu e Capei veio saindo d'água. E Capei era a boiúna. Macunaíma ergueu o busto relumeando de heroísmo e avançou pro monstro. Capei escancarou a goela e soltou uma nuvem de apiacás. Macunaíma bateu que mais bateu vencendo os marimbondos. O monstro atirou uma guascada tirlintando com os guizos do rabo, porém nesse momento uma formiga tracuá mordeu o calcanhar do herói. Ele agachou distraído com a dor e o rabo passou por cima dele indo bater na cara de Capei. Então ela urrou mais e deu um bote na coxa de Macunaíma. Ele só fez um afastadinho com o corpo, agarrou num rochedo e juque! decepou a cabeça da bicha.
O corpo dela se estorceu na corrente enquanto a cabeça com aqueles olhões docinhos vinha beijar vencida os pés do vingador. O herói teve medo e jogou no viado mato dentro acompanhado pelos manos.
- Vem cá, siriri, vem cá! que a cabeça gritava.
Eles chispavam mais. Correram légua e meia e olharam para trás. A cabeça de Capei vinha rolando sempre em busca deles. Correram mais e quando não podiam de fadiga treparam num bacuparizeiro ribeirinho pra ver si a cabeça continuava pra diante. Mas cabeça parou por debaixo do pau e pediu bacuparis. Macunaíma sacudiu a árvore. A cabeça catou as frutas do chão, comeu e pediu mais. Jiguê sacudiu bacuparis dentro d'água porém a cabeça falou que lá não ia não. Então Maanape atirou com toda a força uma fruta longe e enquanto a cabeça ia buscá-la os manos desceram do pau e se rasparam. Correndo correndo, légua e meia adiante deram com a casa onde morava o bacharel de Cananéia. O coroca estava na porta sentado e lia manuscritos profundos. Macunaíma falou pra ele: - Como vai, bacharel? - Menos mal, ignoto viajor.
- Tomando a fresca, não? - C’est vrai, como dizem os franceses.
- Bem, té-logo bacharel, estou meio afobado...
E chisparam outra vez. Atravessaram os sambaquis do Caputera e do Morrete num respiro. Logo adiante havia um rancho teatino. Entraram e fecharam a borta bem. Então Macunaíma pôs reparo que perdera o tembetá. Ficou desesperado porque era a única lembrança que guardava de Ci. Ia saindo pra campear a pedra porém os manos não deixaram. Não durou muito a cabeça chegou. Juque! bateu.
- Que há? - Abra a porta pra mim entrar! Porém jacaré abriu? nem eles! e a cabeça não pôde entrar. Macunaíma não sabia que a cabeça ficara escrava dele e não vinha pra fazer mal não. A cabeça esperou muito porém vendo que não abriam mesmo matutou no que ia ser. Si fosse ser água os outros bebiam, si fosse mosquito flitavam, si fosse trem de ferro descarrilava, si fosse rio punham no mapa... Resolveu: "Vou ser Lua". Gritou:
- Abram a porta, gente, que quero umas coisas! Macunaíma espiou pela fresta e avisou Jiguê já abrindo: - Está solta! Jiguê tornou a fechar a porta. Por isso que existe a expressão "Tá solto!" indicando que a gente não faz mesmo o que nos pedem.
Quando Capei viu que não abriam a porta principiou se lamentando muito e perguntou pra iandu caranguejeira si ajudava a subida pro céu.
- Meu fio Sol derrete, secundou a aranha tatamanha.
Então a cabeça pediu prós xexéus se ajuntarem e ficou noite escura.
- Meu fio ninguém não enxerga de noite, disse a aranha tatamanha.
A cabeça foi buscar um cuitê de friagem nos Andes e falou: - Despeja uma gota cada légua e meia, fio branqueia de geada. Podemos ir.
- Pois então vamos.
A iandu principiou fazendo fio no chão. Com o primeiro ventinho que brisou por ali o fio leviano se ergueu no céu. Então a aranha tatamanha subiu por ele e da ponta lá em riba derramou um bocado de geada. E enquanto a iandu caranguejeira fazia mais fio de lá pra riba, o de baixo branqueava todo. A cabeça gritou: - Adeus, meu povo, que vou pro céu! E lá foi comendo fie sobessubindo pro campo vasto do céu. Os manos abriram a porta e espiaram. Capei sempre subindo.
- Você vai mesmo pro céu, cabeça? - Uum, ela fez não podendo mais abrir a boca. Quando foi ali pela hora antes da madrugada a boiúna Capei chegou no céu. Estava gorducha de tanto fio comido e muito pálida do esforço. Todo o suor dela caía sobre a Terra em gotinhas de orvalho novo. Por causa do fio geado é que Capei é tão fria. Dantes Capei foi a boiúna mas agora é a cabeça da Lua lá no campo vasto do céu. Desde essa feita as caranguejeiras preferem fazer fio de noite.
No outro dia os manos deram um campo até a beira do rio mas campearam, campearam em vão, nada de muiraquitã. Perguntaram pra
todos os seres, aperemas sagüis tatus-mulitas tejus mussuãs da terra e das árvores, tapiucabas chabós matinta-pereras pinica-paus e aracuãs do ar, pra ave japiim e seu compadre marimbondo, pra baratinha casadeira, pro pássaro que grita "Taam!" e sua companheira que responde "Taim!", pra lagartixa que anda de pique com o ratão, prós tambaquis tucunarés piracurus curimatás do rio, os pecaís tapicurus e iererês da praia, todos esses entes vivos mas ninguém não vira nada, ninguém não sabia de nada. E os manos bateram pé na estrada outra vez, varando os domínios imperiais. O silêncio era feio e o desespero também. De vez em quando Macunaíma parava pensando na marvada... Que desejo batia nele! Parava tempo. Chorava muito tempo. As lágrimas escorregando pelas faces infantis, do herói iam lhe batizar a peitaria cabeluda. Então ele suspirava sacudindo a cabecinha: - Qual, manos! Amor primeiro não tem companheiro, não!...
Continuava a caminhar. E por toda a parte recebia homenagens e era sempre seguido pelo séquito sarapintado de jandaias e araras vermelhas.
Uma feita em que deitara numa sombra enquanto esperava os manos pescando, o Negrinho do Pastoreio pra quem Macunaíma rezava diariamente, se apiedou do panema e resolveu ajudá-lo. Mandou o passarinho uirapuru. Quando sinão quando o herói escutou um tatalar inquieto e o passarinho uirapuru pousou no joelho dele. Macunaíma fez um gesto de caceteação e enxotou o passarinho uirapuru. Nem bem minuto passado escutou de novo a bulha e o passarinho pousou na barriga dele. Macunaíma nem se amolou mais. Então o passarinho uirapuru agarrou cantando com doçura e o herói entendeu tudo o que ele cantava. E era que Macunaíma estava desinfeliz porque perdera a muiraquitã na praia do rio quando subia no bacupari. Porém agora, cantava o lamento do uirapuru, nunca mais que Macunaíma havia de ser marupiara não, porque uma traça já engulira a muiraquitã e o mariscador que apanhara a tartaruga tinha vendido a pedra verde pra um regatão peruano se chamando Venceslau Pietro Pietra. O dono do talismã enriquecera e parava fazendeiro e baludo lá em São Paulo, a cidade macota lambida pelo igarapé Tietê.
Dito isto o passarinho uirapuru executou uma letra no ar e desapareceu. Quando os manos chegaram da pesca Macunaíma falou pra eles: - Ia andando por um caminho negaceando um catingueiro e vai, presenciei um friúme no costado. Botei a mão e saiu uma lacraia mansa que me falou toda a verdade.
Então Macunaíma contou o paradeiro da muiraquitã e disse prós manos que estava disposto a ir em São Paulo procurar esse tal Venceslau Pietro Pietra e retomar o tembetá roubado.
- ... ei cascavel faça ninho si eu não topo com a muiraquitã! Si vocês venham comigo muito que bem, si não, homem, antes só do que mal acompanhado! Mas eu tenho opinião de sapo e quando encasqueto uma coisa agüento firme no toco. Hei de ir só pra tirar a prosa do passarinho uirapuru, minto! da lacraia.
Depois que discursou Macunaíma deu uma grande gargalhada imaginando na peça que pregava no passarinho. Maanape e Jiguê resolveram ir com ele.
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Macunaíma, X PAUÍ-PÓDOLE
Venceslau Pietro Pietra ficara muito doente com a sova e estava todo envolvido em rama de algodão. Passou meses na rede. Macunaíma não podia nem dar passo pra conseguir a muiraquitã agora guardada den tro do caramujo por debaixo do corpo do gigante. Ima ginou botar formiga cupim no chinelo do outro porque isso traz morte, dizem, porém Piaimã tinha pé pra trás e não usava chinelo. Macunaíma estava muito contra riado com aquele chove-não-molha e passava o dia na rede mastigando beiju membeca entre codórios longos de restilo. Nesse tempo veio pedir pousada na pensão o índio Antônio, santo famoso com a companheira dele, Mãe de Deus. Foi visitar Macunaíma, fez discurso e ba tizou o herói diante do deus que havia de vir e tinha forma nem bem de peixe nem bem de anta. Foi assim que Macunaíma entrou pra religião Caraimonhaga que estava fazendo furor no sertão da Bahia.
Macunaíma aproveitava a espera se aperfeiçoando nas duas línguas da terra, o brasileiro falado e o por tuguês escrito. Já sabia nome de tudo. Uma feita era dia da Flor, festa inventada prós Brasileiros serem ca ridosos e tinha tantos mosquitos carapanãs que Ma cunaíma largou do estudo e foi na cidade refrescar as idéias. Foi e viu um despropósito de coisas. Parava em cada vitrina e examinava dentro dela aquela porção de monstros, tantos que até parecia a serra do Ererê onde tudo se refugiou quando a enchente grande inundou o mundo. Macunaíma passeava passeava e encontrou uma cunhatã com uma urupema carregadinha de ro sas. A mocica fez ele parar e botou uma flor na lapela dele, falando: - Custa milréis.
Macunaíma ficou muito contrariado porque não sabia como era o nome daquele buraco da máquina roupa onde a cunhatã enfiara a flor. E o buraco chama va botoeira. Imaginou escarafunchando na memória bem, mas nunca não ouvira mesmo o nome daquele buraco. Quis chamar aquilo de buraco porém viu logo que confundia com os outros buracos deste mundo e ficou com vergonha da cunhatã. "Orifício" era palavra que a gente escrevia mas porém nunca ninguém não falava "orifício" não. Depois de pensamentear pensamentear não havia meios mesmo de descobrir o nome daquilo e pôs reparo que da rua Direita onde topara com a cunhatã já tinha ido parar adiante de São Ber nardo, passada a moradia de mestre Cosme. Então vol tou, pagou pra moça e falou de venta-inchada: - A senhora me arrumou com um dia-de-judeu! Nunca mais me bote flor neste... neste puíto, dona! Macunaíma era desbocado duma vez. Falara uma bocagem muito porca, muito! A cunhatã não sabia que puíto era palavra-feia não e enquanto o herói voltava aluado com o caso pra pensão, ficou se rindo, achando graça na palavra. "Puíto..." que ela dizia. E repetia gozado: "Puíto... Puíto"... Imaginou que era moda. Então se pôs falando pra toda a gente si queriam que ela botasse uma rosa no puíto deles. Uns quiseram ou tros não quiseram, as outras cunhatãs escutaram a pa lavra, a empregaram e "puíto" pegou. Ninguém mais não falava em boutonnière por exemplo; só puíto, puíto se escutava.
Macunaíma ficou de azeite uma semana, sem co mer sem brincar sem dormir só porque desejava saber as línguas da terra. Lembrava de perguntar prós ou tros como era o nome daquele buraco mais tinha ver gonha de irem pensar que ele era ignorante e moita. • Afinal chegou o domingo pé-de-cachimbo que era dia do Cruzeiro, feriado novo inventado prós Brasileiros descansarem mais. De manhã teve parada na Mooca, ao meio-dia missa campal no Coração de Jesus, às dezes sete corso e batalha de confetes na avenida Rangel Pes tana e de-noite, depois da passeata dos deputados e desocupados pela rua Quinze, ia queimar um fogo-de-artifício no Ipiranga. Então pra espairecer Macunaí ma foi no parque ver os fogos.
Nem bem saiu da pensão topou com uma cunha clara, louríssima, filhinha-da-mandioca bem, toda de branco e o chapéu de tucumã vermelho coberto de margaridinhas. Chamava Fráulein e sempre carecia de pro teção. Foram juntos e chegaram lá. O parque estava uma boniteza. Tinha tantas máquinas repuxos mistu radas com a máquina luz elétrica que a gente se en costava um no outro no escuro e as mãos se agarra vam pra agüentar a admiração. Assim a dona fez e Macunaíma sussurrou docemente: - Mani... filhinha da mandioca!...
Pois então a alemãzinha chorando comovida, se vi rou e perguntou pra ele si deixava ela afincar aquela margarida no puíto dele. Primeiro o herói ficou muito assarapantado, muito! e quis zangar porém depois li gou os fatos e percebeu que fora muito inteligente. Ma cunaíma deu uma grande gargalhada.
Mas o caso é que "puíto" já entrara pras revistas estudando com muita ciência os idiomas escrito e falado e já estava mais que assente que pelas leis de catalepse elipse síncope mentonímia metafonia metátese próclise prótese aférese apócope haplologia etimologia popular todas essas leis, a palavra "botoeira" viera a dar em "puíto", por meio duma palavra intermediária, a voz latina "rabanitius" (botoeira-rabanitius-puíto), sendo que rabanitius embora não encontrada nos documentos medievais, afirmaram os doutos que na certa existira e fora corrente no sermo vulgaris.
Nesse momento um mulato da maior mulataria tre pou numa estátua e principiou um discurso entusias mado explicando pra Macunaíma o que era o dia do Cruzeiro. No céu escampado da noite não tinha uma nuvem nem Capei. A gente enxergava os conhecidos, os pais-das-árvores os pais-das-aves os pais-das-caças e o parentes manos pais mães tias cunhadas cunhas cunhatãs, todas essas estrelas piscapiscando bem felizes nessa terra sem mal, adonde havia muita saúde e pouca saúva, o firmamento lá. Macunaíma escutava muito agradecido, concordando com a fala comprida que o discursador fazia pra ele. Só depois do homem apontar muito e descrever muito é que Macunaíma pôs reparo que o tal de Cruzeiro era mas eram aquelas quatro es trelas que ele sabia muito bem serem o Pai de Mutum morando no campo do céu. Teve raiva da mentira do mulato e berrou: - Não é não! - ... Meus senhores, que o outro discursava aquelas quatro estrelas rutilantes como lágrimas arden tes, no dizer do sublime poeta, são o sacrossanto e tra dicional Cruzeiro que...
- Não é não! - Psiu! - ... o símbolo mais...
- Não é não! - Apoiados! - Fora! - Psiu!... Psiu!...
- ... mais su-sublime e maravilhoso da nossa amarmada pátria é aquele misterioso Cruzeiro lucilante que...
- Não é não! - ... ve-vedes com...
- Nan sculhàmba! - ... suas... qua... tro claras lantejoulas de prat...
- Não é não! - Não é não! que outros gritavam também. Com tanta bulha afinal o mulato entrupigaitou e todos os presentes animados pelo "Não é não!" do he rói estavam com muita vontade de fazer um chinfrim. Porém Macunaíma tremia tão tiririca que nem perce beu. Pulou em riba da estátua e principiou contando a história do Pai do Mutum. E era assim: - Não é não! Meus senhores e minhas senhoras! Aquelas quatro estrelas lá é o Pai do Mutum! juro que é o Pai do Mutum, minha gente, que pára no campo vasto do céu!... Isso foi no tempo em que os animais já não eram mais homens e sucedeu no grande mato Fulano. Era uma vez dois cunhados que moravam mui to longe um do outro. Um chamava Camã-Pabinque e era catimbozeiro. Uma feita o cunhado de Camã-Pabin que entrou no mato por amor de caçar um bocado. Es tava fazendo e topou com Pauí-Pódole e seu compadre o vaga-lume Camaiuá. E Pauí-Pódole era o Pai do Mu tum. Estava trepado no galho alto da acapu, descan sando. Vai, o cunhado do feiticeiro voltou pra maloca e falou pra companheira dele que tinha topado com Pauí-Pódole e seu compadre Camaiuá. E o Pai do Mutum com seu compadre num tempo muito de dantes já foram gente que nem nós. O homem falou mais que bem que tinha querido matar Pauí-Pódole com a sarabatana porém não alcançara o poleiro alto do Pai do Mutum na acapu. E então pegou na frecha de pracuuba com ponta de taboca e foi pescar carataís. Logo Camã-Pabinque chegou na maloca do cunhado e falou: - Mana, o que foi que vosso companheiro falou pra você? Então a mana contou tudo pro feiticeiro e que Pauí-Pódole estava empoleirado na acapu com seu com padre o vaga-lume Camaiuá. No outro dia manhãzinha Camã-Pabinque saiu do papiri dele e achou Pauí-Pódole piando na acapu. Então o catimbozeiro virou na tocandeira Ilague e foi subindo pelo pau mas o Pai do Mutum enxergou a formigona e soprou um pio forte. Bateu um ventarão tamanho que o feiticeiro despencou do pau, caindo nas capituvas da serrapilheira. Então virou na tacuri Opalá menorzinha e foi subindo outra vez, porém Pauí-Pódole tornou a enxergar a formiga. Soprou e veio um ventinho brisando que sacudiu Opalá nas trapoerabas da serrapilheira. Então Camã-Pabin que virou na lavapés chamada Megue, pequetitinha, su biu na acapu, ferrou o Pai do Mutum bem no furinho do nariz, enrolou o corpico e trazendo o não-se-diz entre os ferrões, juque! esguichou ácido-fórmico aí. Chi! mi nha gente! Isso Pauí-Pódole abriu um vôo esparra mado com a dor e espirrou Megue longe! O feiticeiro nem não pôde sair mais do corpo de Megue, do susto que pegou. E ficou mais essa praga da formiguinha la vapés pra nós... Gente!.
"Pouca saúde e muita saúva, Os males do Brasil são!"
já falei... No outro dia Pauí-Pódole quis ir morar no céu pra não padecer mais com as formigas da nossa terra, fez. Pediu, pro compadre vaga-lume alumiar o ca minho na frente com as lanterninhas verdes bem ace sas. O vaga-lume Cunavá sobrinho do outro foi na fren te alumiando caminho pra Camaiuá e pediu pro mano que fosse na frente alumiando pra ele também. O man0 pediu pro pai, o pai pediu pra mãe, a mãe pediu pra toda a geração, o chefe-de-polícia e o inspetor do quarteirão e muitos muitos, uma nuvem de valumes foram alumiando caminho uns prós outros. Fizeram, gostaram de lá e sempre uns atrás dos outros nunca mais voltaram do campo vasto do céu. É aquele ca minho de luz que daqui se enxerga atravessando o espaço. Pauí-Pódole então avoou pro céu e ficou lá. Minha gente! aquelas quatro estrelas não é Cruzeiro, que Cruzeiro nada! É o Pai do Mutum! É o Pai do Mutum, minha gente! É o Pai do Mutum, Pauí-Pódole que pára no campo vasto do Céu!... Tem mais não".
Macunaíma parou fatigado. Então se ergueu do povaréu um murmurejo longo de felicidade fazendo relumear mais ainda as gentes, os pais-dos-pássaros os pais-dos-peixes os pais-dos-insetos os pais-das-árvores, todos esses conhecidos que param no campo do céu. E era imenso o contentamento daquela paulistanada man dando olhos de assombro pras gentes, pra todos esses pais dos vivos brilhando morando no céu. E todos esses assombros de-primeiro foram gente depois foram os as sombros misteriosos que fizeram nascer todos os seres vivos. E agora são as estrelinhas do céu.
O povo se retirou comovido, feliz no coração cheio de explicações e cheio das estrelas vivas. Ninguém não se amolava mais nem com dia do Cruzeiro nem com as máquinas repuxos misturadas com a máquina luz elé trica. Foram pra casa botar pelego por debaixo do len çol porque por terem brincado com fogo aquela noite, na certa que iam mijar na cama. Foram todos dormir. E a escuridão se fez.
Macunaíma parado em riba da estátua ficara so zinho ali. Também estava comovido. Olhou pra altura. Que Cruzeiro nada! Era Pauí-Pódole se percebia bem daqui... E Pauí-Pódole estava rindo pra ele, agradecendo. De repente piou comprido parecendo trem-de-ferro. Não era trem era piado e o sopro apagou todas as luzes do parque. Então o Pai do Mutum mexeu uma asa mansamente se despedindo do herói. Macunaíma ia agradecer, porém o pássaro erguendo a poeira da neblina largou numa carreira
Macunaíma aproveitava a espera se aperfeiçoando nas duas línguas da terra, o brasileiro falado e o por tuguês escrito. Já sabia nome de tudo. Uma feita era dia da Flor, festa inventada prós Brasileiros serem ca ridosos e tinha tantos mosquitos carapanãs que Ma cunaíma largou do estudo e foi na cidade refrescar as idéias. Foi e viu um despropósito de coisas. Parava em cada vitrina e examinava dentro dela aquela porção de monstros, tantos que até parecia a serra do Ererê onde tudo se refugiou quando a enchente grande inundou o mundo. Macunaíma passeava passeava e encontrou uma cunhatã com uma urupema carregadinha de ro sas. A mocica fez ele parar e botou uma flor na lapela dele, falando: - Custa milréis.
Macunaíma ficou muito contrariado porque não sabia como era o nome daquele buraco da máquina roupa onde a cunhatã enfiara a flor. E o buraco chama va botoeira. Imaginou escarafunchando na memória bem, mas nunca não ouvira mesmo o nome daquele buraco. Quis chamar aquilo de buraco porém viu logo que confundia com os outros buracos deste mundo e ficou com vergonha da cunhatã. "Orifício" era palavra que a gente escrevia mas porém nunca ninguém não falava "orifício" não. Depois de pensamentear pensamentear não havia meios mesmo de descobrir o nome daquilo e pôs reparo que da rua Direita onde topara com a cunhatã já tinha ido parar adiante de São Ber nardo, passada a moradia de mestre Cosme. Então vol tou, pagou pra moça e falou de venta-inchada: - A senhora me arrumou com um dia-de-judeu! Nunca mais me bote flor neste... neste puíto, dona! Macunaíma era desbocado duma vez. Falara uma bocagem muito porca, muito! A cunhatã não sabia que puíto era palavra-feia não e enquanto o herói voltava aluado com o caso pra pensão, ficou se rindo, achando graça na palavra. "Puíto..." que ela dizia. E repetia gozado: "Puíto... Puíto"... Imaginou que era moda. Então se pôs falando pra toda a gente si queriam que ela botasse uma rosa no puíto deles. Uns quiseram ou tros não quiseram, as outras cunhatãs escutaram a pa lavra, a empregaram e "puíto" pegou. Ninguém mais não falava em boutonnière por exemplo; só puíto, puíto se escutava.
Macunaíma ficou de azeite uma semana, sem co mer sem brincar sem dormir só porque desejava saber as línguas da terra. Lembrava de perguntar prós ou tros como era o nome daquele buraco mais tinha ver gonha de irem pensar que ele era ignorante e moita. • Afinal chegou o domingo pé-de-cachimbo que era dia do Cruzeiro, feriado novo inventado prós Brasileiros descansarem mais. De manhã teve parada na Mooca, ao meio-dia missa campal no Coração de Jesus, às dezes sete corso e batalha de confetes na avenida Rangel Pes tana e de-noite, depois da passeata dos deputados e desocupados pela rua Quinze, ia queimar um fogo-de-artifício no Ipiranga. Então pra espairecer Macunaí ma foi no parque ver os fogos.
Nem bem saiu da pensão topou com uma cunha clara, louríssima, filhinha-da-mandioca bem, toda de branco e o chapéu de tucumã vermelho coberto de margaridinhas. Chamava Fráulein e sempre carecia de pro teção. Foram juntos e chegaram lá. O parque estava uma boniteza. Tinha tantas máquinas repuxos mistu radas com a máquina luz elétrica que a gente se en costava um no outro no escuro e as mãos se agarra vam pra agüentar a admiração. Assim a dona fez e Macunaíma sussurrou docemente: - Mani... filhinha da mandioca!...
Pois então a alemãzinha chorando comovida, se vi rou e perguntou pra ele si deixava ela afincar aquela margarida no puíto dele. Primeiro o herói ficou muito assarapantado, muito! e quis zangar porém depois li gou os fatos e percebeu que fora muito inteligente. Ma cunaíma deu uma grande gargalhada.
Mas o caso é que "puíto" já entrara pras revistas estudando com muita ciência os idiomas escrito e falado e já estava mais que assente que pelas leis de catalepse elipse síncope mentonímia metafonia metátese próclise prótese aférese apócope haplologia etimologia popular todas essas leis, a palavra "botoeira" viera a dar em "puíto", por meio duma palavra intermediária, a voz latina "rabanitius" (botoeira-rabanitius-puíto), sendo que rabanitius embora não encontrada nos documentos medievais, afirmaram os doutos que na certa existira e fora corrente no sermo vulgaris.
Nesse momento um mulato da maior mulataria tre pou numa estátua e principiou um discurso entusias mado explicando pra Macunaíma o que era o dia do Cruzeiro. No céu escampado da noite não tinha uma nuvem nem Capei. A gente enxergava os conhecidos, os pais-das-árvores os pais-das-aves os pais-das-caças e o parentes manos pais mães tias cunhadas cunhas cunhatãs, todas essas estrelas piscapiscando bem felizes nessa terra sem mal, adonde havia muita saúde e pouca saúva, o firmamento lá. Macunaíma escutava muito agradecido, concordando com a fala comprida que o discursador fazia pra ele. Só depois do homem apontar muito e descrever muito é que Macunaíma pôs reparo que o tal de Cruzeiro era mas eram aquelas quatro es trelas que ele sabia muito bem serem o Pai de Mutum morando no campo do céu. Teve raiva da mentira do mulato e berrou: - Não é não! - ... Meus senhores, que o outro discursava aquelas quatro estrelas rutilantes como lágrimas arden tes, no dizer do sublime poeta, são o sacrossanto e tra dicional Cruzeiro que...
- Não é não! - Psiu! - ... o símbolo mais...
- Não é não! - Apoiados! - Fora! - Psiu!... Psiu!...
- ... mais su-sublime e maravilhoso da nossa amarmada pátria é aquele misterioso Cruzeiro lucilante que...
- Não é não! - ... ve-vedes com...
- Nan sculhàmba! - ... suas... qua... tro claras lantejoulas de prat...
- Não é não! - Não é não! que outros gritavam também. Com tanta bulha afinal o mulato entrupigaitou e todos os presentes animados pelo "Não é não!" do he rói estavam com muita vontade de fazer um chinfrim. Porém Macunaíma tremia tão tiririca que nem perce beu. Pulou em riba da estátua e principiou contando a história do Pai do Mutum. E era assim: - Não é não! Meus senhores e minhas senhoras! Aquelas quatro estrelas lá é o Pai do Mutum! juro que é o Pai do Mutum, minha gente, que pára no campo vasto do céu!... Isso foi no tempo em que os animais já não eram mais homens e sucedeu no grande mato Fulano. Era uma vez dois cunhados que moravam mui to longe um do outro. Um chamava Camã-Pabinque e era catimbozeiro. Uma feita o cunhado de Camã-Pabin que entrou no mato por amor de caçar um bocado. Es tava fazendo e topou com Pauí-Pódole e seu compadre o vaga-lume Camaiuá. E Pauí-Pódole era o Pai do Mu tum. Estava trepado no galho alto da acapu, descan sando. Vai, o cunhado do feiticeiro voltou pra maloca e falou pra companheira dele que tinha topado com Pauí-Pódole e seu compadre Camaiuá. E o Pai do Mutum com seu compadre num tempo muito de dantes já foram gente que nem nós. O homem falou mais que bem que tinha querido matar Pauí-Pódole com a sarabatana porém não alcançara o poleiro alto do Pai do Mutum na acapu. E então pegou na frecha de pracuuba com ponta de taboca e foi pescar carataís. Logo Camã-Pabinque chegou na maloca do cunhado e falou: - Mana, o que foi que vosso companheiro falou pra você? Então a mana contou tudo pro feiticeiro e que Pauí-Pódole estava empoleirado na acapu com seu com padre o vaga-lume Camaiuá. No outro dia manhãzinha Camã-Pabinque saiu do papiri dele e achou Pauí-Pódole piando na acapu. Então o catimbozeiro virou na tocandeira Ilague e foi subindo pelo pau mas o Pai do Mutum enxergou a formigona e soprou um pio forte. Bateu um ventarão tamanho que o feiticeiro despencou do pau, caindo nas capituvas da serrapilheira. Então virou na tacuri Opalá menorzinha e foi subindo outra vez, porém Pauí-Pódole tornou a enxergar a formiga. Soprou e veio um ventinho brisando que sacudiu Opalá nas trapoerabas da serrapilheira. Então Camã-Pabin que virou na lavapés chamada Megue, pequetitinha, su biu na acapu, ferrou o Pai do Mutum bem no furinho do nariz, enrolou o corpico e trazendo o não-se-diz entre os ferrões, juque! esguichou ácido-fórmico aí. Chi! mi nha gente! Isso Pauí-Pódole abriu um vôo esparra mado com a dor e espirrou Megue longe! O feiticeiro nem não pôde sair mais do corpo de Megue, do susto que pegou. E ficou mais essa praga da formiguinha la vapés pra nós... Gente!.
"Pouca saúde e muita saúva, Os males do Brasil são!"
já falei... No outro dia Pauí-Pódole quis ir morar no céu pra não padecer mais com as formigas da nossa terra, fez. Pediu, pro compadre vaga-lume alumiar o ca minho na frente com as lanterninhas verdes bem ace sas. O vaga-lume Cunavá sobrinho do outro foi na fren te alumiando caminho pra Camaiuá e pediu pro mano que fosse na frente alumiando pra ele também. O man0 pediu pro pai, o pai pediu pra mãe, a mãe pediu pra toda a geração, o chefe-de-polícia e o inspetor do quarteirão e muitos muitos, uma nuvem de valumes foram alumiando caminho uns prós outros. Fizeram, gostaram de lá e sempre uns atrás dos outros nunca mais voltaram do campo vasto do céu. É aquele ca minho de luz que daqui se enxerga atravessando o espaço. Pauí-Pódole então avoou pro céu e ficou lá. Minha gente! aquelas quatro estrelas não é Cruzeiro, que Cruzeiro nada! É o Pai do Mutum! É o Pai do Mutum, minha gente! É o Pai do Mutum, Pauí-Pódole que pára no campo vasto do Céu!... Tem mais não".
Macunaíma parou fatigado. Então se ergueu do povaréu um murmurejo longo de felicidade fazendo relumear mais ainda as gentes, os pais-dos-pássaros os pais-dos-peixes os pais-dos-insetos os pais-das-árvores, todos esses conhecidos que param no campo do céu. E era imenso o contentamento daquela paulistanada man dando olhos de assombro pras gentes, pra todos esses pais dos vivos brilhando morando no céu. E todos esses assombros de-primeiro foram gente depois foram os as sombros misteriosos que fizeram nascer todos os seres vivos. E agora são as estrelinhas do céu.
O povo se retirou comovido, feliz no coração cheio de explicações e cheio das estrelas vivas. Ninguém não se amolava mais nem com dia do Cruzeiro nem com as máquinas repuxos misturadas com a máquina luz elé trica. Foram pra casa botar pelego por debaixo do len çol porque por terem brincado com fogo aquela noite, na certa que iam mijar na cama. Foram todos dormir. E a escuridão se fez.
Macunaíma parado em riba da estátua ficara so zinho ali. Também estava comovido. Olhou pra altura. Que Cruzeiro nada! Era Pauí-Pódole se percebia bem daqui... E Pauí-Pódole estava rindo pra ele, agradecendo. De repente piou comprido parecendo trem-de-ferro. Não era trem era piado e o sopro apagou todas as luzes do parque. Então o Pai do Mutum mexeu uma asa mansamente se despedindo do herói. Macunaíma ia agradecer, porém o pássaro erguendo a poeira da neblina largou numa carreira
Macunaíma, XVII URSA MAIOR
Macunaíma se arrastou até a tapera sem gente agora. Estava muito contrariado porque não com preendia o silêncio. Ficara defunto sem choro, no aban dono completo. Os manos tinham ido-se embora trans formados na cabeça esquerda do urubu-ruxama e nem siquer a gente encontrava cunhas por ali. O silêncio principiava cochilando a beira-rio do Uraricoera. Que enfaro! E principalmente, ah!... que preguiça!...
Macunaíma foi obrigado a abandonar a tapera cuja última parede trançada com palha de catolé estava caindo. Mas o impaludismo não lhe dava coragem nem pra construir um papiri. Trouxera a rede pro alto dum teso onde tinha uma pedra com dinheiro enterrado por debaixo. Amarrou a rede nos dois cajueiros frondejando e não saiu mais dela por muitos dias dormindo caceteado e comendo cajus. Que solidão! O próprio séquito sarapintado se dissolvera. Não vê que um ajuru-catinga passara muito afobado por ali. Os papa gaios perguntaram pro parente onde que ia.
- Madurou milho na terra dos Ingleses, vou pra lá! Então todos os papagaios foram comer milho na terra dos Ingleses. Porém primeiro viraram periquitos porque assim, comiam e os periquitos levavam a fama. Só ficara um aruaí muito falador. Macunaíma se con solou pensamenteando: "O mal ganhado, diabo leva... paciência". Passava os dias enfarado e se distraía fa zendo o pássaro repetir na fala da tribo os casos que tinham sucedido pro herói desde infância. Aaah ... Macunaíma bocejava escorrendo caju, muito mole na rede, com as mãos pra trás fazendo cabeceiro, o casal de legornes empoleirado nos pés e o papagaio na bar riga. Vinha a noite. Aromado pelas frutas do cajuei ro o herói ferrava no sono bem. Quando a arraiada vinha o papagaio tirava o bico da asa e tomava o café da manhã devorando as aranhas que de-noite fiavam as teias dos ramos pro corpo do herói. Depois falava: - Macunaíma! O dorminhoco nem se mexia.
- Macunaíma! ôh Macunaíma! - Deixa a gente dormir, aruaí...
- Acorda, herói! É de-dia! - Ah... que preguiça!.. .
- Pouca saúde e muita saúva, Os males do Brasil são!...
Macunaíma dava uma grande gargalhada e cocava a cabeça cheia de pixilinga que é piolho-de-galinha. Então o papagaio repetia o caso aprendido na véspera e Macunaíma se orgulhava de tantas glórias passadas. Dava entusiasmo nele e se punha contado pro aruaí outro caso mais pançudo. E assim todos os dias.
Quando a Papaceia que é a estrela Vésper apa recia falando pras coisas irem dormir, o papagaio zan gava por causa da história parando no meio. Uma feita ele insultou a estrela Papaceia. Então Macunaíma contou: - "Não insulta ela não, aruaí! Taína-Cã é bom. Taína-Cã que é a estrela Papaceia tem pena da Terra e manda Emoron-Pódole dar o sossego do sono deste mundo pra todas essas coisas que podem ter sossego porque não possuem pensamento que nem nós. Taína-Cã é indivíduo também... Relumeava lá no campo vasto do céu e a filha mais velha do morubixaba Zo zoiaça da tribo carajá, solteirona chamada Imaerô fa lou assim: - Pai, Taína-Cã relumeia tão bonito que eu quero me amulherar com ele.
Zozoiaça riu bem por causa que não podia dar Taína-Cã de casamento pra filha velha não. Vai, de-noite veio descendo o rio uma piroga de prata, um remeiro saltou dela, bateu no poial e falou pra Imaerô: - Eu sou Taína-Cã. Escutei vosso pedido e vim numa piroga de prata. Casa comigo por favor? - Sim, ela fez contentíssima.
Deu a rede pro noivo e foi dormir com a mana mais nova se chamando Denaquê.
No outro dia quando Taína-Cã pulou da rede to dos se sarapantaram. Era uma coroca enrugado enru gado, tremelicando tanto feito a luz da estrela Papa ceia. Vai, Imaerô falou: - Cai fora, coroca! Vê lá si vou casar com velho! Pra mim há-de ser um moço mui brabo mucudo e de nação carajá! Taína-Cã ficou jururu jururu e principiou imagi nando na injustiça dos homens. Porém a filha mais nova do morubixaba Zozoiaça teve pena do coroca e falou: - Eu caso com você...
Taína-Cã brilhou de gozo. Ficaram ajustados. Denaquê preparando o enxoval cantava noite e dia: - Amanhã por estas horas, furrum-fum-fum... Zozoiaça respondia: - Eu também com vossa mãe, furrum-fum-fum ...
Depois que se acabaram os dedos das vossas mãos, papagaio, que são de espera pra noivo, na rede trança da por Denaquê se brincou dança de amor, furrum-fum-fum.
Nem bem o dia estava rompendo a barra, Taína-Cã pulou da rede e falou pra companheira: - Vou derrubar mato pra fazer roçado. Agora você fica no mocambo e nunca não vai na roça me espiar.
- Sim, ela fez.
E ficou na rede, matutando gozada naquele velhi nho esquisito que dera pra ela a noite mais gostosa de amor que a gente imagina.
Taína-Cã derrubou mato, botou fogo em todos os macurus de formiga e preparou a terra. Naquele tem po inda a nação carajá não conhecia as plantas boas. Era só peixe e bicho que carajá engolia.
Na outra madrugada Taína-Cã falou pra compa nheira que ia buscar sementes pra semear e repetiu a proibição. Denaquê ficou deitada na rede inda um bo cado, matutando nas gostosuras valentes das noites de amor que o bom do coroca dava pra ela. E foi fiar.
Taína-Cã deu uma chegadinha no céu, foi até o corgo Berô, fez oração e botando uma perna em cada barreira do corgo esperou assuntando a água. Daí a pouco vieram vindo no pêlo da agüinha as sementes do milho cururuca, o fumo, a maniveira, todas essas plan tas boas. Taína-Cã apanhou o que passava, desceu do céu e foi no roçado plantar. Estava trabucando na Sol quando Denaquê apareceu. Era por causa que ela de sodosa quis ver o companheiro dando gostosuras tão valentes pra ela nas noites de amor. Denaquê deu um grito de alegria. Taína-Cã não era coroca não! Taína-Cã era mas um rapaz muito brabo mucudo e de nação carajá. Fizeram um macio de fumo e de maniva e brincaram pulado na Sol.
Quando voltaram pro mocambo muito se rindo um pro outro, Imaerô ficou tiririca. Gritou: - Taína-Cã é meu! Foi pra mim que ele veio do céu! - Sai azar! que Taína-Cã falou. Quando eu quis você não quis, pois agora brinque-se! E trepou na rede com Denaquê. Imaerô desinfeliz suspirou assim: - Deixe estar jacaré, que a lagoa há-de secar!... E saiu gritando pelo mato. Virou na ave araponga que grita amarelo de inveja no quiriri do mato diurno. Desde então por causa da bondade de Taína-Cã é que Carajá come mandioca e milho e possui fumo pra se animar.
E tudo o que Carajá carecia, Taína-Cã ia no céu e voltava trazendo. Pois não é que Denaquê, de ambicio sa, deu pra namorar com todas as estrelinhas do céu! Deu sim, e Taína-Cã que é a Papaceia enxergou tudo. Isso, até se orvalhou de tão triste, pegou nos teréns e foi-se embora pro vasto campo do céu. Ficou lá, trouxe mais nada não. Si a Papaceia continuasse trazendo as coisas do outro lado de lá, céu era aqui, nosso todinho. Agora é só do nosso desejo. Tem mais não". O papagaio dormia.
Uma feita janeiro chegado Macunaíma acordou tarde com o pio agourento do tincuã. No entanto era dia feito e a cerração já entrara pro buraco... O herói tremeu e apalpou o feitiço que trazia no pescoço, um ossinho de piá morto pagão. Procurou o aruaí, desapa recera. Só o galo com a galinha brigando por causa duma aranha derradeira. Fazia um calorão parado tão imenso que se escutava o sininho de vidro dos gafanho tos. Vei, a Sol, escorregava pelo corpo de Macunaíma, fazendo cosquinhas, virada em mão de. moça. Era mal vadeza da vingarenta só por causa do herói não ter se amulherado com uma das filhas de luz. A mão de moça vinha e escorregava tão de manso no corpo... Que vontade nos músculos pela primeira vez espetados depois de tanto tempo! Macunaíma se lembrou que fazia muito não brincava. Água fria diz que é bom pra es pantar as vontades... O herói escorregou da rede, tirou a penugem de teia vestindo todo o corpo dele e descendo até o vale de Lágrimas foi tomar banho num sacado perto que os repiquetes do tempo-das-águas ti nham virado num lagoão.
Macunaíma depôs com delicadeza os legornes na praia e se chegou pra água. A lagoa estava toda cober ta de ouro e prata e descobriu o rosto deixando ver o que tinha no fundo. E Macunaíma enxergou lá no fun do uma cunha lindíssima, alvinha e padeceu de mais vontade. E a cunha lindíssima era a Uiara.
Vinha chegando assim como quem não quer, com muitas danças, piscava pro herói, parecia que dizia - "Cai fora, seu nhonhô moço!" e fastava com muitas danças assim como quem não quer. Deu uma vontade no herói tão imensa que alargou o corpo dele e a boca umideceu: - Mani!. . .
Macunaíma queria a dona. Botava o dedão n'água e num átimo a lagoa tornava a cobrir o rosto com as teias de ouro e prata. Macunaíma sentia o frio da água, retirava o dedão.
Foi assim muitas vezes. Se aproximava o pino do dia e Vei estava zangadíssima. Torcia pra Macunaíma cair nos braços traiçoeiros da moça do lagoão e o herói tinha medo do frio. Vei sabia que a moça não era moça não, era a Uiara. E a Uiara vinha chegando outra vez com muitas danças. Quê boniteza que ela era!... Mo rena e coradinha que-nem a cara do dia e feito o dia que vive cercado de noite, ela enrolava a cara nos ca belos curtos negros como as asas da graúna. Tinha no perfil duro um narizinho tão mimoso que nem servia pra respirar. Porém como ela só se mostrava de frente e festava sem virar Macunaíma não via o buraco no cangote por onde a pérfida respirava.. E o herói inde ciso, vai-não-vai. Sol teve raiva. Pegou num rabo-de-tatu de calorão e guascou o lombo do herói. A dona ali, diz-que abrindo os braços mostrando a graça fe chando os olhos molenga. Macunaíma sentiu fogo no espinhaço, estremeceu, fez pontaria, se jogou feito em cima dela, juque! Vei chorou de vitória. As lágrimas caíram na lagoa num chuveiro de ouro e de ouro. Era o pino do dia.
Quando Macunaíma voltou na praia se percebia que brigara muito lá no fundo, Ficou de bruços um tem pão coma vida dependurada nos respiros fatigados. Es tava sangrando com mordidas pelo corpo todo, sem per na direita, sem os dedões sem os côcos-da-Bahia sem orelhas sem nariz sem nenhum dos seus tesouros. Afinal pôde se erguer. Quando deu tento das perdas teve ódio de Vei. A galinha cacarejava deixando um ovo na praia. Macunaíma pegou nele e chimpou-o no carão feliz da Sol. O ovo esborrachou bem nas bochechas dela que \ sujou-se de amarelo pra todo o sempre. Entardecia.
Macunaíma sentou numa lapa que já fora jaboti nos tempos de dantes e andou contando os tesouros per didos em baixo d'água. E eram muitos, era uma perna os dedões, eram os côcos-da-Bahia eram as orelhas os dois brincos feitos com a máquina pathek e a máquina smith-wesson, o nariz todos esses tesouros... O herói pulou dando um grito que encurtou o tamanho do dia. As piranhas tinham comido também o beiço dele e a muiraquitã! Ficou feito louco.
Arrancou uma montanha de timbó de assacú de tingui de canambí, todas essas plantas e envenenou pra sempre o lagoão. Todos os peixes morreram e ficaram boiando com a barriga pra cima, barrigas azuis barrigas amarelas barrigas rosadas, todas as barrigas sara) pintando a face da lagoa. Era de-tardinha.
Então Macunaíma destripou todos esses peixes, todas as piranhas e todos os botos, caqueando a muraquitã nas barrigas. Foi uma sangueira mãe escorrendo sobre a terra e tudo ficou tinto de sangue. Era bôca-da-noite.
Macunaíma campeava campeava. Achou os dois brincos achou os dedões achou as orelhas os nuquiiri o nariz, todos esses tesouros e prendeu todos nos lugares deles com sapé e cola de peixe. Porém a perna e a muiraquitã não achou não. Tinham sido engolidos pelo monstro Ururau que não morre com timbó nem pau. O sangue coalhara negro cobrindo a praia e o lagoão. Era de-noite.
Macunaíma campeava campeava. Soltava grite de lamentação encurtando com a bulha o tamanho da bicharada. Nada. O herói varava o campo, saltando na perna só. Gritava: - Lembrança! Lembrança da minha marvada não vejo nem ela nem você nem nada! E pulava mais. As lágrimas pingavam dos olhinhos azuis dele sobre as florzinhas brancas do campo. As florzinhas tingiram de azul e foram os miosótis. O herói não podia mais, parou. Cruzou os braços num desespero tão heróico que tudo se alargou no espaço pra conter o silêncio daquele penar. Só um mosquitinho raquitiquinho infernizava inda mais a disgra do herói, zumbindo fininho: "Vim di Minas... vim di Minas..." Então Macunaíma não achou mais graça nesta terra. Capei bem nova relumeava lá na gupiara do céu. Macunaíma cismou inda meio indeciso, sem saber si morar no céu ou na ilha de Marajó. Um momento pensou mesmo em morar na cidade da Pedra com o enérgico Delmiro Gouveia, porém lhe faltou ânimo. Pra vi ver lá, assim como tinha vivido era impossível. Até era por causa disso mesmo que não achava mais graça na Terra... Tudo o que fora a existência dele apesar de tantos casos tanta brincadeira tanta ilusão tanto sofri: mento tanto heroísmo, afinal não fora sinão um se dei xar viver; e pra parar na cidade do Delmiro ou na ilha de Marajó que são desta Terra carecia de ter um sen tido. E ele não tinha coragem pra uma organização. Decidiu: - Qua o quê!... Quando urubu está de caipora o de baixo caga no de cima, este mundo não tem jeito mais e vou pro céu.
Ia pro céu viver com a marvada. Ia ser o brilho bonito mas inútil porém de mais uma constelação. Não fazia mal que fosse brilho inútil não, pelo menos era o mesmo de todos esses parentes de todos os pais dos vivos da sua terra, mães pais manos cunhas cunhadas cunhatãs, todos esses conhecidos que vivem agora do brilho inútil das estrelas.
Plantou uma semente do cipó matamatá, filho-da-luna, e enquanto o cipó crescia agarrou numa itá pontuda escreveu na lage que já fora jaboti num tempo muito de dantes:
NÃO VIM NO MUNDO PARA SER PEDRA
A planta já tinha crescido e se agarrava numa pon ta de Capei. O herói capenga enfiou a gaiola dos legornes no braço e foi subindo pro céu. Cantava triste: - "Vamos dar a despedida, - Tapera, Taleqüal o passarinho,.
- Tapera, Bateu asa foi-se embora, - Tapera, Deixou a pena no ninho.
- Tapera..."
Lá chegando bateu na maloca de Capei. A Lua desceu no terreiro e perguntou: - Quê que quer, saci? - Abênção minha madrinha, me dá pão com fa rinha? Então Capei reparou que não era saci não, era Macunaíma o herói. Mas não quis dar pensão pra ele, se lembrando do fedor antigo do herói. Macunaíma enfe zou. Deu uma porção de munhecaços na cara da Lua. Por isso que ela tem aquelas manchas escuras na cara.
Então Macunaíma foi bater na casa de Caiuano gue, a estrêla-da-manhã. Caiuanogue apareceu na janelinha pra ver quem era e confundida pelo negrume da noite e a capenguice do herói, perguntou: - Que é que quer, saci? Mas logo pôs reparo que era Macunaíma o herói e nem esperou resposta se lembrando que ele cheirava muito fedido.
- Vá tomar banho! falou fechando a janelinha.
Macunaíma tornou a enfezar e gritou.
- Vem pra rua, cafajeste! Caiuanogue raspou um susto enorme e ficou tre mendo espiando pelo buraco da fechadura. Por isso que a bonita da estrelinha é tão pecurrucha e tremelica tanto.
Então Macunaíma foi bater na casa de Pauí-Pódole, o Pai do Mutum. Pauí-Pódole gostava muito dele porque Macunaíma o defendera daquele mulato da maior mulataria na festa do Cruzeiro. Mas exclamou: - Ah, herói, tarde piaste! Era uma honra grande pra mim receber no meu mosqueiro um descendente de jaboti, raça primeira de todas.. . No princípio era só o Jaboti Grande que existia na vida... Foi ele que no silêncio da noite tirou da barriga um indivíduo e sua cunha. Estes foram os primeiros fulanos vivos e as pri meiras gentes da vossa tribo... Depois, que os outros vieram. Chegaste tarde, herói! Já somos em doze e com você a gente ficava treze na mesa. Sinto muito mas chorar não posso! - Que pena, sinh'Helena! que o herói exclamou. Então Pauí-Pódole teve dó de Macunaíma. Fez uma feitiçaria. Agarrou três pauzinhos jogou pro alto fez encruzilhada e virou Macunaíma com todo o estenderete dele, galo galinha gaiola revólver relógio, numa constelação nova. É a constelação da Ursa Maior.
Dizem que um professor naturalmente alemão an dou falando por aí por causa da perna só da Ursa Maior que ela é o saci... Não é não! Saci inda pára neste mundo espalhando fogueira e traçando crina de bagual... A Ursa Maior é Macunaíma. É mesmo o herói capenga que de tanto penar na terra sem saúde e com muita saúva, se aborreceu de tudo, foi-se embora e ban za solitário no campo vasto do céu.
Macunaíma foi obrigado a abandonar a tapera cuja última parede trançada com palha de catolé estava caindo. Mas o impaludismo não lhe dava coragem nem pra construir um papiri. Trouxera a rede pro alto dum teso onde tinha uma pedra com dinheiro enterrado por debaixo. Amarrou a rede nos dois cajueiros frondejando e não saiu mais dela por muitos dias dormindo caceteado e comendo cajus. Que solidão! O próprio séquito sarapintado se dissolvera. Não vê que um ajuru-catinga passara muito afobado por ali. Os papa gaios perguntaram pro parente onde que ia.
- Madurou milho na terra dos Ingleses, vou pra lá! Então todos os papagaios foram comer milho na terra dos Ingleses. Porém primeiro viraram periquitos porque assim, comiam e os periquitos levavam a fama. Só ficara um aruaí muito falador. Macunaíma se con solou pensamenteando: "O mal ganhado, diabo leva... paciência". Passava os dias enfarado e se distraía fa zendo o pássaro repetir na fala da tribo os casos que tinham sucedido pro herói desde infância. Aaah ... Macunaíma bocejava escorrendo caju, muito mole na rede, com as mãos pra trás fazendo cabeceiro, o casal de legornes empoleirado nos pés e o papagaio na bar riga. Vinha a noite. Aromado pelas frutas do cajuei ro o herói ferrava no sono bem. Quando a arraiada vinha o papagaio tirava o bico da asa e tomava o café da manhã devorando as aranhas que de-noite fiavam as teias dos ramos pro corpo do herói. Depois falava: - Macunaíma! O dorminhoco nem se mexia.
- Macunaíma! ôh Macunaíma! - Deixa a gente dormir, aruaí...
- Acorda, herói! É de-dia! - Ah... que preguiça!.. .
- Pouca saúde e muita saúva, Os males do Brasil são!...
Macunaíma dava uma grande gargalhada e cocava a cabeça cheia de pixilinga que é piolho-de-galinha. Então o papagaio repetia o caso aprendido na véspera e Macunaíma se orgulhava de tantas glórias passadas. Dava entusiasmo nele e se punha contado pro aruaí outro caso mais pançudo. E assim todos os dias.
Quando a Papaceia que é a estrela Vésper apa recia falando pras coisas irem dormir, o papagaio zan gava por causa da história parando no meio. Uma feita ele insultou a estrela Papaceia. Então Macunaíma contou: - "Não insulta ela não, aruaí! Taína-Cã é bom. Taína-Cã que é a estrela Papaceia tem pena da Terra e manda Emoron-Pódole dar o sossego do sono deste mundo pra todas essas coisas que podem ter sossego porque não possuem pensamento que nem nós. Taína-Cã é indivíduo também... Relumeava lá no campo vasto do céu e a filha mais velha do morubixaba Zo zoiaça da tribo carajá, solteirona chamada Imaerô fa lou assim: - Pai, Taína-Cã relumeia tão bonito que eu quero me amulherar com ele.
Zozoiaça riu bem por causa que não podia dar Taína-Cã de casamento pra filha velha não. Vai, de-noite veio descendo o rio uma piroga de prata, um remeiro saltou dela, bateu no poial e falou pra Imaerô: - Eu sou Taína-Cã. Escutei vosso pedido e vim numa piroga de prata. Casa comigo por favor? - Sim, ela fez contentíssima.
Deu a rede pro noivo e foi dormir com a mana mais nova se chamando Denaquê.
No outro dia quando Taína-Cã pulou da rede to dos se sarapantaram. Era uma coroca enrugado enru gado, tremelicando tanto feito a luz da estrela Papa ceia. Vai, Imaerô falou: - Cai fora, coroca! Vê lá si vou casar com velho! Pra mim há-de ser um moço mui brabo mucudo e de nação carajá! Taína-Cã ficou jururu jururu e principiou imagi nando na injustiça dos homens. Porém a filha mais nova do morubixaba Zozoiaça teve pena do coroca e falou: - Eu caso com você...
Taína-Cã brilhou de gozo. Ficaram ajustados. Denaquê preparando o enxoval cantava noite e dia: - Amanhã por estas horas, furrum-fum-fum... Zozoiaça respondia: - Eu também com vossa mãe, furrum-fum-fum ...
Depois que se acabaram os dedos das vossas mãos, papagaio, que são de espera pra noivo, na rede trança da por Denaquê se brincou dança de amor, furrum-fum-fum.
Nem bem o dia estava rompendo a barra, Taína-Cã pulou da rede e falou pra companheira: - Vou derrubar mato pra fazer roçado. Agora você fica no mocambo e nunca não vai na roça me espiar.
- Sim, ela fez.
E ficou na rede, matutando gozada naquele velhi nho esquisito que dera pra ela a noite mais gostosa de amor que a gente imagina.
Taína-Cã derrubou mato, botou fogo em todos os macurus de formiga e preparou a terra. Naquele tem po inda a nação carajá não conhecia as plantas boas. Era só peixe e bicho que carajá engolia.
Na outra madrugada Taína-Cã falou pra compa nheira que ia buscar sementes pra semear e repetiu a proibição. Denaquê ficou deitada na rede inda um bo cado, matutando nas gostosuras valentes das noites de amor que o bom do coroca dava pra ela. E foi fiar.
Taína-Cã deu uma chegadinha no céu, foi até o corgo Berô, fez oração e botando uma perna em cada barreira do corgo esperou assuntando a água. Daí a pouco vieram vindo no pêlo da agüinha as sementes do milho cururuca, o fumo, a maniveira, todas essas plan tas boas. Taína-Cã apanhou o que passava, desceu do céu e foi no roçado plantar. Estava trabucando na Sol quando Denaquê apareceu. Era por causa que ela de sodosa quis ver o companheiro dando gostosuras tão valentes pra ela nas noites de amor. Denaquê deu um grito de alegria. Taína-Cã não era coroca não! Taína-Cã era mas um rapaz muito brabo mucudo e de nação carajá. Fizeram um macio de fumo e de maniva e brincaram pulado na Sol.
Quando voltaram pro mocambo muito se rindo um pro outro, Imaerô ficou tiririca. Gritou: - Taína-Cã é meu! Foi pra mim que ele veio do céu! - Sai azar! que Taína-Cã falou. Quando eu quis você não quis, pois agora brinque-se! E trepou na rede com Denaquê. Imaerô desinfeliz suspirou assim: - Deixe estar jacaré, que a lagoa há-de secar!... E saiu gritando pelo mato. Virou na ave araponga que grita amarelo de inveja no quiriri do mato diurno. Desde então por causa da bondade de Taína-Cã é que Carajá come mandioca e milho e possui fumo pra se animar.
E tudo o que Carajá carecia, Taína-Cã ia no céu e voltava trazendo. Pois não é que Denaquê, de ambicio sa, deu pra namorar com todas as estrelinhas do céu! Deu sim, e Taína-Cã que é a Papaceia enxergou tudo. Isso, até se orvalhou de tão triste, pegou nos teréns e foi-se embora pro vasto campo do céu. Ficou lá, trouxe mais nada não. Si a Papaceia continuasse trazendo as coisas do outro lado de lá, céu era aqui, nosso todinho. Agora é só do nosso desejo. Tem mais não". O papagaio dormia.
Uma feita janeiro chegado Macunaíma acordou tarde com o pio agourento do tincuã. No entanto era dia feito e a cerração já entrara pro buraco... O herói tremeu e apalpou o feitiço que trazia no pescoço, um ossinho de piá morto pagão. Procurou o aruaí, desapa recera. Só o galo com a galinha brigando por causa duma aranha derradeira. Fazia um calorão parado tão imenso que se escutava o sininho de vidro dos gafanho tos. Vei, a Sol, escorregava pelo corpo de Macunaíma, fazendo cosquinhas, virada em mão de. moça. Era mal vadeza da vingarenta só por causa do herói não ter se amulherado com uma das filhas de luz. A mão de moça vinha e escorregava tão de manso no corpo... Que vontade nos músculos pela primeira vez espetados depois de tanto tempo! Macunaíma se lembrou que fazia muito não brincava. Água fria diz que é bom pra es pantar as vontades... O herói escorregou da rede, tirou a penugem de teia vestindo todo o corpo dele e descendo até o vale de Lágrimas foi tomar banho num sacado perto que os repiquetes do tempo-das-águas ti nham virado num lagoão.
Macunaíma depôs com delicadeza os legornes na praia e se chegou pra água. A lagoa estava toda cober ta de ouro e prata e descobriu o rosto deixando ver o que tinha no fundo. E Macunaíma enxergou lá no fun do uma cunha lindíssima, alvinha e padeceu de mais vontade. E a cunha lindíssima era a Uiara.
Vinha chegando assim como quem não quer, com muitas danças, piscava pro herói, parecia que dizia - "Cai fora, seu nhonhô moço!" e fastava com muitas danças assim como quem não quer. Deu uma vontade no herói tão imensa que alargou o corpo dele e a boca umideceu: - Mani!. . .
Macunaíma queria a dona. Botava o dedão n'água e num átimo a lagoa tornava a cobrir o rosto com as teias de ouro e prata. Macunaíma sentia o frio da água, retirava o dedão.
Foi assim muitas vezes. Se aproximava o pino do dia e Vei estava zangadíssima. Torcia pra Macunaíma cair nos braços traiçoeiros da moça do lagoão e o herói tinha medo do frio. Vei sabia que a moça não era moça não, era a Uiara. E a Uiara vinha chegando outra vez com muitas danças. Quê boniteza que ela era!... Mo rena e coradinha que-nem a cara do dia e feito o dia que vive cercado de noite, ela enrolava a cara nos ca belos curtos negros como as asas da graúna. Tinha no perfil duro um narizinho tão mimoso que nem servia pra respirar. Porém como ela só se mostrava de frente e festava sem virar Macunaíma não via o buraco no cangote por onde a pérfida respirava.. E o herói inde ciso, vai-não-vai. Sol teve raiva. Pegou num rabo-de-tatu de calorão e guascou o lombo do herói. A dona ali, diz-que abrindo os braços mostrando a graça fe chando os olhos molenga. Macunaíma sentiu fogo no espinhaço, estremeceu, fez pontaria, se jogou feito em cima dela, juque! Vei chorou de vitória. As lágrimas caíram na lagoa num chuveiro de ouro e de ouro. Era o pino do dia.
Quando Macunaíma voltou na praia se percebia que brigara muito lá no fundo, Ficou de bruços um tem pão coma vida dependurada nos respiros fatigados. Es tava sangrando com mordidas pelo corpo todo, sem per na direita, sem os dedões sem os côcos-da-Bahia sem orelhas sem nariz sem nenhum dos seus tesouros. Afinal pôde se erguer. Quando deu tento das perdas teve ódio de Vei. A galinha cacarejava deixando um ovo na praia. Macunaíma pegou nele e chimpou-o no carão feliz da Sol. O ovo esborrachou bem nas bochechas dela que \ sujou-se de amarelo pra todo o sempre. Entardecia.
Macunaíma sentou numa lapa que já fora jaboti nos tempos de dantes e andou contando os tesouros per didos em baixo d'água. E eram muitos, era uma perna os dedões, eram os côcos-da-Bahia eram as orelhas os dois brincos feitos com a máquina pathek e a máquina smith-wesson, o nariz todos esses tesouros... O herói pulou dando um grito que encurtou o tamanho do dia. As piranhas tinham comido também o beiço dele e a muiraquitã! Ficou feito louco.
Arrancou uma montanha de timbó de assacú de tingui de canambí, todas essas plantas e envenenou pra sempre o lagoão. Todos os peixes morreram e ficaram boiando com a barriga pra cima, barrigas azuis barrigas amarelas barrigas rosadas, todas as barrigas sara) pintando a face da lagoa. Era de-tardinha.
Então Macunaíma destripou todos esses peixes, todas as piranhas e todos os botos, caqueando a muraquitã nas barrigas. Foi uma sangueira mãe escorrendo sobre a terra e tudo ficou tinto de sangue. Era bôca-da-noite.
Macunaíma campeava campeava. Achou os dois brincos achou os dedões achou as orelhas os nuquiiri o nariz, todos esses tesouros e prendeu todos nos lugares deles com sapé e cola de peixe. Porém a perna e a muiraquitã não achou não. Tinham sido engolidos pelo monstro Ururau que não morre com timbó nem pau. O sangue coalhara negro cobrindo a praia e o lagoão. Era de-noite.
Macunaíma campeava campeava. Soltava grite de lamentação encurtando com a bulha o tamanho da bicharada. Nada. O herói varava o campo, saltando na perna só. Gritava: - Lembrança! Lembrança da minha marvada não vejo nem ela nem você nem nada! E pulava mais. As lágrimas pingavam dos olhinhos azuis dele sobre as florzinhas brancas do campo. As florzinhas tingiram de azul e foram os miosótis. O herói não podia mais, parou. Cruzou os braços num desespero tão heróico que tudo se alargou no espaço pra conter o silêncio daquele penar. Só um mosquitinho raquitiquinho infernizava inda mais a disgra do herói, zumbindo fininho: "Vim di Minas... vim di Minas..." Então Macunaíma não achou mais graça nesta terra. Capei bem nova relumeava lá na gupiara do céu. Macunaíma cismou inda meio indeciso, sem saber si morar no céu ou na ilha de Marajó. Um momento pensou mesmo em morar na cidade da Pedra com o enérgico Delmiro Gouveia, porém lhe faltou ânimo. Pra vi ver lá, assim como tinha vivido era impossível. Até era por causa disso mesmo que não achava mais graça na Terra... Tudo o que fora a existência dele apesar de tantos casos tanta brincadeira tanta ilusão tanto sofri: mento tanto heroísmo, afinal não fora sinão um se dei xar viver; e pra parar na cidade do Delmiro ou na ilha de Marajó que são desta Terra carecia de ter um sen tido. E ele não tinha coragem pra uma organização. Decidiu: - Qua o quê!... Quando urubu está de caipora o de baixo caga no de cima, este mundo não tem jeito mais e vou pro céu.
Ia pro céu viver com a marvada. Ia ser o brilho bonito mas inútil porém de mais uma constelação. Não fazia mal que fosse brilho inútil não, pelo menos era o mesmo de todos esses parentes de todos os pais dos vivos da sua terra, mães pais manos cunhas cunhadas cunhatãs, todos esses conhecidos que vivem agora do brilho inútil das estrelas.
Plantou uma semente do cipó matamatá, filho-da-luna, e enquanto o cipó crescia agarrou numa itá pontuda escreveu na lage que já fora jaboti num tempo muito de dantes:
NÃO VIM NO MUNDO PARA SER PEDRA
A planta já tinha crescido e se agarrava numa pon ta de Capei. O herói capenga enfiou a gaiola dos legornes no braço e foi subindo pro céu. Cantava triste: - "Vamos dar a despedida, - Tapera, Taleqüal o passarinho,.
- Tapera, Bateu asa foi-se embora, - Tapera, Deixou a pena no ninho.
- Tapera..."
Lá chegando bateu na maloca de Capei. A Lua desceu no terreiro e perguntou: - Quê que quer, saci? - Abênção minha madrinha, me dá pão com fa rinha? Então Capei reparou que não era saci não, era Macunaíma o herói. Mas não quis dar pensão pra ele, se lembrando do fedor antigo do herói. Macunaíma enfe zou. Deu uma porção de munhecaços na cara da Lua. Por isso que ela tem aquelas manchas escuras na cara.
Então Macunaíma foi bater na casa de Caiuano gue, a estrêla-da-manhã. Caiuanogue apareceu na janelinha pra ver quem era e confundida pelo negrume da noite e a capenguice do herói, perguntou: - Que é que quer, saci? Mas logo pôs reparo que era Macunaíma o herói e nem esperou resposta se lembrando que ele cheirava muito fedido.
- Vá tomar banho! falou fechando a janelinha.
Macunaíma tornou a enfezar e gritou.
- Vem pra rua, cafajeste! Caiuanogue raspou um susto enorme e ficou tre mendo espiando pelo buraco da fechadura. Por isso que a bonita da estrelinha é tão pecurrucha e tremelica tanto.
Então Macunaíma foi bater na casa de Pauí-Pódole, o Pai do Mutum. Pauí-Pódole gostava muito dele porque Macunaíma o defendera daquele mulato da maior mulataria na festa do Cruzeiro. Mas exclamou: - Ah, herói, tarde piaste! Era uma honra grande pra mim receber no meu mosqueiro um descendente de jaboti, raça primeira de todas.. . No princípio era só o Jaboti Grande que existia na vida... Foi ele que no silêncio da noite tirou da barriga um indivíduo e sua cunha. Estes foram os primeiros fulanos vivos e as pri meiras gentes da vossa tribo... Depois, que os outros vieram. Chegaste tarde, herói! Já somos em doze e com você a gente ficava treze na mesa. Sinto muito mas chorar não posso! - Que pena, sinh'Helena! que o herói exclamou. Então Pauí-Pódole teve dó de Macunaíma. Fez uma feitiçaria. Agarrou três pauzinhos jogou pro alto fez encruzilhada e virou Macunaíma com todo o estenderete dele, galo galinha gaiola revólver relógio, numa constelação nova. É a constelação da Ursa Maior.
Dizem que um professor naturalmente alemão an dou falando por aí por causa da perna só da Ursa Maior que ela é o saci... Não é não! Saci inda pára neste mundo espalhando fogueira e traçando crina de bagual... A Ursa Maior é Macunaíma. É mesmo o herói capenga que de tanto penar na terra sem saúde e com muita saúva, se aborreceu de tudo, foi-se embora e ban za solitário no campo vasto do céu.
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