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Macunaíma, XV A PACUERA DE OIBÊ

Então os três manos voltaram pra querência deles.

Estavam satisfeitos porém o herói inda mais con tente que os outros porque tinha os sentimentos que só um herói pode ter: uma satisfa imensa. Partiram. Quando atravessaram o pico do Jaraguá Macunaíma virou pra trás contemplando a cidade macota de São Paulo. Maginou sorumbático muito tempo e no fim sacudiu a cabeça murmurando: - Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são...

Enxugou a lágrima, consertou o beicinho tremendo. Então fez um caborge: Sacudiu os braços no ar e virou a taba gigante num bicho preguiça todinho de pedra. Partiram.

Depois de muito refletir, Macunaíma gastara o ara me derradeiro comprando o que mais o entusiasmara na civilização paulista. Estavam ali com ele o revólver Smith-Wesson o relógio Pathek e o casal de galinha Legorne. Do revólver e do relógio Macunaíma fizera os brincos das orelhas e trazia na mão uma gaiola com o galo e a galinha. Não possuía mais nem um tostão do que ganhara no bicho porém lhe balangando no beiço furado pendia a muiraquitã.

E por causa dela tudo ficara mais fácil. Desciam de rodada o Araguaia e quando Jiguê remava Maanape manejava o joão-de-pau. Se sentiam marupiaras outra vez. Pois então Macunaíma adestro na proa tomava nota das pontes que carecia construir ou consertar pra facilitar a vida do povo goiano. Noite chegada, enxer gando as luzinhas dos afogados sambando manso nas ipueiras da cheia, Macunaíma olhava olhava e adormecia bem. Acordava esperto no outro dia e erguido na proa da igarité com o argolão da gaiola enfiado no braço esquerdo, repinicava na violinha botando a boca no mundo cantando saudades da querência, assim: Antianti é tapejara, - Pirá-uauau, Ariramba é cozinheira, - Pirá-uauau, Tapera, onde a tapera.

Da beira do Uraricoera? - Pirá-uauau.

E o olhar dele espichando espichando descia a pele do rio em busca dos pagos da infância. Descia e cada cheiro de peixe cada moita de craguatá cada tudo pu nha entusiasmo nele e o herói botava a boca no mundo feito maluco fazendo emboladas e traçados sem sentido: Tapera tapejara, - Caboré, Arapaçu passoca, - Caboré, Manos, vamos-se embora Pra beira do Uraricoera! - Caboré!

As águas araguaias murmurejavam chamando a reta da igarité com gemidinho e lá do longe vinha a cantiga pequenta das uiaras. Vei, a Sol, dava lambadas no costado relumeando suor de Maanape e Jiguê remeiros e no cabeludo corpo em pé do herói. Era um calorão molhado fazendo fogo no delírio dos três. Macunaíma se lembrou que era imperador do Mato-Virgem. Riscou um gesto na Sol, gritando: - Eropita boiamorebo! Logo o céu se escurentou de sopetão e uma nuvem ruivor subiu do horizonte entardecendo a calma do dia. A ruivor veio vindo veio vindo e era o bando de araras vermelhas e jandaias, todos esses faladores, era o papagaio-trombeta era o papagaio-curraleiro era o periquito cutapado era o xarã o peito-roxo o ajuru-curau o ajuru-curica arari ararica araraúna araraí araguaí arara-taua maracana maitaca arara-piranga catorra teriba camiranga anaca anapura canindés tuins periquitos, todos esses, o cortejo sarapintado de Macunaíma im perador. E todos esses faladores formaram uma tenda de asas e de gritos protegendo o herói do despeito vingarento da Sol. Era uma bulha de águas deuses e pas sarinhos que nem se escutava mais nada e a igarité meio parava atordoada. Mas Macunaíma assustando os legornes riscava de quando em vez um gesto diante de tudo e gritava: - Era uma vez uma vaca amarela, quem falar primeiro come a bosta dela! Dem-de-lem chegou! O mundo ficava mudo não falando um isto e o si lêncio vinha amulegar a mornidão da sombra na iga rité. E se escutava lá no longe lá no longe baixinho baixinho o ruidejar do Uraricoera. Então dava mais entusiasmo no herói. A violinha repinicava tremida. Macunaíma pigarreava atirando gusparadas no rio e en quanto o guspe afundava transformado em mata-matás nojentos, o herói botava a boca no mundo feito maluco sem nem saber o que cantava, assim:

Panapaná pá-panapaná, Panapaná pá-panapanema: Papa de papo na popa, - Maninha, Na beira do Uraricoera!

Depois a bôca-da-noite engoliu todas as bulhas e o mundo adormeceu. Tinha só Capei, a Lua, enorme de gorda, rechonchuda que-nem cara das polacas depois duma noite daquelas, puxavante! quanta sacanagem fe liz quanta cunha bonita e quanto cachiri... Então Macunaíma teve saudades do sucedido na taba grande paulistana. Viu todas aquelas donas de pele alvinha com quem brincara de marido e mulher, foi tão bom!... Sussurrou docemente: "Mani! Mani! filhinhas da man dioca!" ... Deu um tremor comovido no beiço dele que quase a muiraquitã cai no rio. Macunaíma tornou a enfiar o tembetá no beiço. Então pensou muito sério na dona da muiraquitã, na briguenta, na diaba gostosa que batera tanto nele, Ci. Ah! Ci, Mãe do Mato, marvada que tornara-se inesquecível porque fizera ele dormir na rede tecida com os cabelos dela!... "Quem tem seus amores longe, passa trabalhos trianos..." parafusou. Quê caborge da marvada!... E estava lá no campo do céu banzando nuns trinques toda enfeitada passean do brincando quem sabe com quem... Teve ciúmes. Ergueu os braços pro alto assustando os legornes e re zou pro Pai do Amor:

Rudá! Rudá! Tu que estás no céu E mandas nas chuvas.

Rudá! faz com que minha amada Por mais companheiros que arranje Ache que todos são frouxos! Assopra nessa marvada Sodades do seu marvado! Faz com que ela se lembre de mim amanhã Quando a Sol for-se embora no poente !...

Olhou bem pro ar. Não tinha Ci não, Capei só, gordanchona, tomando tudo. O herói deitou de comprido na igarité, fez um cabeceiro da gaiola e ador meceu entre maruins piuns muriçocas.

A noite já estava amarelando quando Macunaíma acordou com os gritos dos viras num bambuzal. Assun tou a vista e deu um pulo na praia, falando pra Jiguê: - Espera um bocadinho.

Entrou no mato bem, légua e meia. Foi buscar a linda Iriqui, companheira dele que já fora companheira de Jiguê e esperava se enfeitando e cocando mucuim assentada nas raízes da samaúma. Os dois se festeja ram, muito brincaram e vieram pra igarité.

Quando foi ali pelo meio-dia a papagaiada se es tendeu de novo resguardando Macunaíma. E assim por muitos dias. Uma tarde o herói estava muito enfarado e se lembrou de dormir em terra firme, fez. Nem bem pisou na praia e se ergueu na frente dele um mons tro. Era o bicho Ponde um jucurutu do Solimões que virava gente de-noite e engolia os estradeiros. Porém Macunaíma pegou na flecha que tinha na ponta a ca beça chata da formiga santa chamada curupê e nem fez pontaria, acertou que foi uma beleza. O bicho Ponde estourou virando coruja. Mais pra diante depois de atravessado um chato quando subia por um espigão cheio de crocas topou com o Monstro Mapinguari macaco-homem que anda no mato fazendo mal pràs moças. O monstro agarrou Macunaíma porém o herói tirou o toaquiçu pra fora e mostrou pro Mapinguari.

- Não confunde não, parceiro! O monstro riu e deixou Macunaíma passar. O he rói andou légua e meia procurando um pouso sem for miga. Subiu na ponta dum cumaru de quarenta me tros e afinal depois de muito campear descobriu uma luzinha longe. Foi lá e topou com um rancho. E era o rancho de Oibê. Macunaíma bateu e uma vozica mui doce gemeu de lá dentro: - Quem vem lá! - É de paz! Então a porta se abriu e apareceu um bicho tama nho que sarapantou o herói. Era o monstro Oibê o minhocão temível. O herói sentiu friagem por dentro mas se lembrou do smith-wesson, criou coragem e pediu pou sada.

- Entre que a casa é sua.

Macunaíma entrou, sentou numa canastra e ficou assim. Afinal perguntou: - Vamos conversar? - Vamos.

- Sobre o quê? Oibê cocou a barbicha matutando e de repente des cobriu satisfeito: - Vamos conversar porcaria? - Chi! gosto disso que é um horror! o herói ex clamou: E conversaram uma hora de porcariada.

Oibê estava cozinhando a comidinha dele. Ma cunaíma não tinha fome nenhuma porém botou a gaiola no chão e só de embusteiro esfregando a mão na barriga fez: - Juque! Oibê resmungou: - Que é isso, gente! - É fome é fome! Oibê pegou numa gamela, botou cará com feijão dentro, encheu uma cuia com farinha-d'água e ofere ceu pro herói. Mas não deu nem um tiquinho de pacuera assando no espeto de canela de sassafrás e aro mando bem. Macunaíma engoliu tudo sem mastigar e não tinha fome nenhuma porém a boca dele ficou cheia de água por causa da pacuera assando. Esfregou a mão na barriga e fez: .

- Juque! Oibê resmungou: - Que é isso, gente! - É sede é sede! Oibê pegou no balde e foi buscar água no poço. Enquanto ia, Macunaíma tirou a canela de sassafrás das brasas engoliu a pacuera inteira sem mastigar e fi cou bem sossegado esperando. Quando o minhocão trouxe o balde Macunaíma bebeu um coco cheio. De pois se espreguiçando suspirou: - Juque! O monstro se sarapantou: - Que mais que é, gente! - É sono é sono! Então Oibê levou Macunaíma pro quarto-de-hóspedes deu boa-noite e fechou a porta por fora. Foi cear. Macunaíma botou a gaiola num canto, cobrindo o ca sal de galinhas com umas chitas. Assuntou o quarto bem. Tinha uma bulhinha sem parada vinha de todos os lados. Macunaíma bateu a pedra do isqueiro e viu que eram baratas. Trepou assim mesmo na rede não sem espiar mais uma vez si não faltava nada prós legornes. O casal estava até bem satisfeito comendo barata. Macunaíma se riu pra ele, arrotou e adorme ceu. Daí a pouco estava coberto de baratas lambendo.

Quando Oibê pôs reparo que Macunaíma tinha comido a pacuera, teve raiva. Agarrou num sininho, se embrulhou num lençol branco e foi fazer assombra ção pro hóspede. Mas era só de brincadeira. Bateu na porta e manejou o sininho, de-lem! - Oi? - Vim buscar minha pacuera-cuera-cuera-cuera-cuera, de-lem! Abriu a porta. Quando o herói enxergou a assom bração ficou com tanto medo que nem se mexeu. Ele não sabia que era Oibê não. A fantasma vinha vindo: - Vim buscar minha pacuera-cuera-cuera-cuera cuera, de-lem! Então Macunaíma percebeu que não era assom bração nada, era mas o monstro Oibê minhocão temível. Criou coragem pegou no brinco da orelha esquerda que era a máquina revólver e deu um tiro na assombração. Porém Oibê não fez caso e veio vindo. O herói tornou a ter medo. Pulou da rede agarrou a gaiola e escafedeu pela janela, jogando baratas no caminho todo. Oibê correu atrás. Mas era só de brincadeira que ele queria comer o herói. Macunaíma desembestara agres te fora mas isso ia que ia acochado pelo minhocão. Então botou o furabolo na goela, fez cosquinha e lan çou a farinha engolida. A farinha virou num areão e enquanto o monstro pelejava pra atravessar aquele mundo de areia escorregando, Macunaíma fugia. To mou pela direita, desceu o morro do Estrondo que soa de sete em sete anos seguiu por uns caponetes e depois de cortar um travessão encapelado fez o Sergipe de ponta a ponta e parou ofegando num agarrado muito pedregoso. Na frente havia uma lapa grande furada por uma furna com um altarzinho dentro. Na boca da socava um frade. Macunaíma perguntou pro frade: - Como se chama o nome de você? O frade pôs no herói uns olhos frios e secundou com pachorra: - Eu sou Mendonça Mar pintor. Desgostoso da injustiça dos homens faz três séculos que afastei-me deles metendo cara no sertão. Descobri esta gruta ergui com minhas mãos este altar do Bom Jesus da Lapa e vivo aqui perdoando gente mudado em frei Francisco da Soledade.

- Está bom, Macunaíma falou. E partiu na chispada.

Mas o terreno era cheio de socavas e logo adiante estava outro desconhecido fazendo um gesto tão bobo que Macunaíma parou sarapantado. Era Hercules Florence. Botara um vidro na boca duma furna mirim, tapava e destapava o vidro com uma folha de taioba. Macunaíma perguntou: - Ara, ara ara! Mas você não me dirá o quê que está fazendo aí, siô! O desconhecido virou pra ele e com os olhos relumeando de alegria falou: - Gardez cette date: 1927! Je viens d'inventer Ia photographie! Macunaíma deu uma grande gargalhada.

- Chi! Isso já inventaram que anos, siô! Então Hercules Florence caiu estuporado sobre a folha de taioba e principiou anotando com música uma memória científica sobre o canto dos passarinhos. Es tava maluco. Macunaíma chispou.

Depois que correu légua e meia olhou pra trás e viu que Oibê já vinha perto. Botou o furabolo na goela e lá foi pro chão todo o cará engolido que virou num tartarugal mexemexendo. Oibê custou pra virar aquela imundície de tartaruga e Macunaíma fugiu. Légua e meia adiante olhou pra trás. Isso Oibê vinha na cola dele. Então tornou a botar o furabolo na goela e lan çou que era só feijão e água. Tudo virou num lamedo cheio de sapos-bois e quanto Oibê se debatia atraves sando aquilo, o herói catava umas minhocas pras ga linhas e partia afobado. Ganhou muita dianteira e pa rou pra descansar. Ficou bem admirado porque tinha corrido tanto que estava outra feita na porta do rancho de Oibê. Resolveu se esconder no pomar. Tinha um pé de carambola e Macunaíma principiou arrancando ra mos do caramboleiro pra se amoitar por debaixo. Os ramos cortados agarram pingando água de lágrima e se escutou o lamento do caramboleiro:

Jardineiro de meu pai, Não me, cortes meus cabelos, Que o malvado me enterrou Pelo figo da figueira Que passarinho comeu...

- Chó, chó, passarinho!

Todos os passarinhos choraram de pena gemida nos ninhos e o herói gelou de susto. Agarrou no patuá que trazia entre os berloques do pescoço e traçou uma mandinga. O caramboleiro virou numa princesa muito chique. O herói teve um desejo danado de brincar com a princesa porém Oibê já devia de estar estourando por aí. De-fato: - Vim buscar minha pacuera-cuera-cuera-cuera-cuera, de-lem! Macunaíma deu a mão pra princesa e fugiram na disparada. Mais adiante havia uma figueira com a sapopemba enorme. Oibê estava já no calcanhar deles e Macunaíma não tinha tempo mais pra nada. Então se meteu com a princesa no buraco da sapopemba. Mas o minhocão enfiou o braço e inda agarrou a perna do herói. Ia puxar mas Macunaíma deu uma grande gar galhada de experiência e falou: - Você está maginando que pegou minha gâmbia, pegou não! Isso é raiz, bocó! O minhocão largou. Macunaíma gritou: - Pois era a perna mesmo bocó-de-mola! Oibê tornou a enfiar o braço mas o herói já, tinha encolhido a perna e o minhocão só achou raiz. Tinha uma garça perto. Oibê falou pra ela: - Comadre garça, bote sentido no herói. Não deixa ele sair que vou buscar uma enxada pra cavar.

A garça ficou guardando. Quando Oibê já estava longe Macunaíma falou pra ela: - Então, sua palerma, é assim que se bota sen tido num herói! Fique bem perto arregalando os olhos! A garça fez. Então Macunaíma atirou um punha do de formigas-de-fogo nos olhos dela e enquanto a gar ça gritava de cega ele saiu do buraco com a princesa e escafederam outra vez. Perto de Santo Antônio do Mato Grosso toparam com uma bananeira e estavam morrendo de fome. Macunaíma falou pra princesa: - Assobe, come as verdes que são boas e atira as amarelas pra mim.

Ela fez. O herói se fartou enquanto a princesa dançava de eólicas pra ele apreciar. Oibê já vinha che gando e eles desataram o punho da rede outra vez.

Depois de correrem mais légua e meia, enfim che garam num firme pontudo do Araguaia. Porém a igarité estava abicada bem mais pra baixo na outra mar gem com Maanape Jiguê a linda Iriqui, todos esses companheiros dormindo. Macunaíma olhou pra trás. Oibê quase ali. Então botou o furabolo na goela pela última vez, fez cosquinha e alojou a pacuera n'água. A pacuera virou num periantã muito fofo de ervas. Macunaíma botou a gaiola com jeito no fofo, atirou a princesa lá e dando um arranco na margem com o pé, afastou da praia o periantã que as águas levaram. Oibê chegou mas os fugitivos iam longe. Então o minhocão que era um lobisomem famoso principiou tremelicando criou rabo e virou cachorro-do-mato. Escancarou a goela desencantada e saiu da barriga dele uma bor boleta azul. Era alma de homem presa no corpo do lobo por artes do Carrapatu medonho que pára na gruta do Iporanga.

Macunaíma e a princesa brincando desciam a cor rente do rio. Agora estão se rindo um pro outro.

Quando passaram rente da igarité os manos se acordaram com os gritos de Macunaíma e foram atrás. Iriqui ficou logo enciumada porque o herói não queria saber mais dela e só brincava com a princesa. E pra ver si reconquistava o herói abriu num bué famoso. Jiguê teve logo muita pena dela e falou pra Macunaíma ir brincar com Iriqui um poucadinho. Jiguê era muito bobo. Mas o herói que já andava impinimando com Iriqui secundou pra ele: - Iriqui é muito relambória, mano, mas a prin cesa, upa! Não dê credito pra Iriqui não! Oi que Sol de inverno chuva de verão choro de mulher palavra de ladrão, eieiei... ninguém não caia não! E foi brincar com a princesa. Iriqui ficou triste triste, bem triste, chamou seis araras canindés e subiu com elas pro céu, chorando luz

Macunaíma, XVI URARICOERA

NO outro dia Macunaíma amanheceu com muita tosse e uma febrinha sem parada. Maanape desconfiou e foi fazer um cozimento de broto de abacate, imagi nando que o herói estava hético. Em vez era impalu dismo, e a tosse viera só por causa da laringite que toda a gente carrega de São Paulo. Agora Macunaíma passava as horas deitado de borco na proa da igarité e nunca mais que havia de sarar. Quando a princesa não podia mais e vinha pra brincarem, o herói até uma vez recusou suspirando: - Ara... que preguiça...

No outro dia atingiram as cabeceiras dum rio e escutaram perto o ruidejar do Uraricoera. Era ali. Um passarinho serigaita trepado na munguba, enxergando o farrancho gritou logo: - Sinhá dona do porto, dá caminho pra mim passar! Macunaíma agradeceu feliz. De pé ele assuntava a paisagem passando. Veio vindo o forte São Joaquim erguido pelo mano do grande Marquês. Macunaíma deu um té-logo pro cabo e pro soldado que só possuíam um naco esfarrapado de culote e o boné na cabeça e viviam guardando as saúvas dos canhões. Afinal ficou tudo conhecidíssimo. Se enxergou o cerro manso que fora mãe um dia, no lugar chamado Pai da Tocandeira, se enxergou o pauê trapacento malhado de vitórias-régias escondendo os puraquês e os pitiús e pra diante do be bedouro da anta se viu o roçado velho agora uma tigüera e a maloca velha agora uma tapera. Macunaíma chorou.

Abicaram e entraram na tapera. Vinha a bôca-da-noite. Maanape com Jiguê resolveram fazer uma facheada pra pegarem algum peixe e a princesa foi ver si topava com algum arezi pra comerem. O herói ficou descansando. Estava assim quando sentiu no ombro um peso de mão. Virou a cara e olhou. Junto dele estava um velho de barba. O velho falou: - Quem és tu, nobre estrangeiro? - Não sou estranho não, conhecido. Sou Macunaíma o herói e vim parar de novo na terra dos meus. Você quem é? O velho afastou os mosquitos com amargura e secundou: - Sou João Ramalho.

Então João Ramalho enfiou dois dedos na boca e assoviou. Apareceram a mulher dele as quinze famí lias de escadinha. E lá partiram de mudança buscando pagos novos sem ninguém.

No outro dia bem cedinho foram todos trabucar. A princesa foi no roçado Maanape foi no mato e Jiguê foi no rio. Macunaíma se desculpou, subiu na montaria e deu uma chegadinha até a boca do rio Negro pra buscar a consciência deixada na ilha de Marapatá. Jacaré achou? nem ele. Então o herói pegou na cons ciência dum hispanoamericano, botou na cabeça e se deu bem da mesma forma.

Passava uma piracema de jaraquis. Macunaíma agarrou pescando e distraído distraído quando viu es tava em Óbidos, a montaria cheinha de peixes frescos. Mas o herói foi obrigado a atirar tudo fora porque em Óbidos "quem come j ar aqui fica aqui" falam e ele ti nha que voltar pro Uraricoera. Voltou e como era ainda o pino do dia deitou na sombra da ingazeira catou os carrapatos e dormiu. Tarde chegando todos voltaram pra tapera só Macunaíma não. Os outros saíram pra esperar. Jiguê se acocorou botando a orelha no chão pra ver si escutava o passinho do herói, nada. Maanape trepou no grelo duma inajá pra ver si enxer gava o brilho dos brincos do herói, nada. Então saíram por mato e capoeira gritando: - Macunaíma, nosso mano!...

Nada. Jiguê chegou debaixo da ingazeira e gritou: - Nosso mano! - Que foi! - Você, aposto que já estava dormindo! - Dormindo nada, então! Estava mas era nega ceando um inambu-guaçu. Você fez bulha, nhambu escapoliu! Voltaram. E assim todos os dias. Os manos an davam muito desconfiados. Macunaíma percebeu e disfarçou bem: - Eu caço porém não acho nada não. Jiguê nem caça nem pesca, passa o dia dormindo.

Jiguê teve raiva porque peixe andava rareando e caça inda mais. Foi na praia do rio pra ver si pescava alguma coisa e topou com o feiticeiro Tzaló que tem uma perna só. O catimbozeiro possuía uma cabaça encantada feita com a metade duma casca de gerimum. Mergulhou a cabaça no rio, encheu de água até o meio e despejou na praia. Caiu um despropósito de peixe. Jiguê reparou bem como que o feiticeiro fazia. Tzaló largou da cabaça por aí e principiou matando peixe com um porrete. Então Jiguê roubou a cabaça do fei ticeiro Tzaló que tem uma perna só.

Mais pra diante fez que-nem tinha reparado e veio muito peixe, veio pirandira veio pacu veio cascudo veio bagre jundiá tucunaré, todos esses peixes e Jiguê vol tou carregado pra tapera depois de esconder a cabaça na raiz do cipó. Todos ficaram sarapantados com aquele mundo de peixe e comeram bem. Macunaíma desconfiou.

No outro dia esperou com o olho esquerdo dor mindo que Jiguê fosse pescar, saiu atrás. Descobriu tudo. Quando o mano foi-se embora Macunaíma lar gou da gaiola com os legornes no chão pegou na cabaça escondida e fez que-nem o mano. Isso vieram muitos peixes, veio acará veio piracanjuba veio aviú guri-juba, piramutaba mandi surubim, todos esses peixes. Macunaíma atirou a cabaça por aí, na pressa de matar todos os peixes, cabaça caiu numa lapa e juque! mer gulhou no rio. Passava a pirandira chamada Padzá. Imaginou que era abobra e engoliu a cabaça que virou na beixiga de Padzá. Então Macunaíma enfiou a gaiola no braço voltou pra tapera e contou o sucedido. Jiguê teve raiva.

- Cunhada princesa, eu que pesco, seu compa nheiro fica dormindo em baixo da ingazeira e inda atra palha os outros! - Mentira! - Então o que você fez hoje? - Cacei viado.

- Quê-dele ele! - Comi, uai! Fui andando por um caminho, vai, topei rasto dum... catingueiro não era não mas era mateiro. Me agachei e fui no rasto. Olhando olhando, sabe, dei uma cabeçada numa coisa mole, que engra çado! sabem o que era! pois a bunda do viado, gente! (Macunaíma deu uma grande gargalhada). Viado per guntou pra mim: - Que está fazendo aí, parente!, - Te campeando! secundei. E vai, matei o catingueiro que comi com tripa e tudo. Vinha trazendo um naco pra vocês, vai, escorreguei atravessando o ipu, dei um tombo, naco foi parar longe e tanajura sujou nele.

A peta era tamanha que Maanape desconfiou. Maanape era feiticeiro. Chegou bem rente do mano e perguntou: - Você foi na caça? - Quer dizer... fui sim.

- O quê você caçou? - Viado.

- Qual! Maanape fez um grande gesto. O herói piscou de medo e confessou que tudo era lorota.

No outro dia Jiguê estava procurando a cabaça quando topou com o tatu-canastra feiticeiro chamado Caicãe que nunca teve mãe. Caicãe sentado na porta da toca puxou a violinha dele feita com a outra metade da abobra encantada e agarrou cantando assim:

"Vote vote coandu! Vote vote cuati! Vote vote taiçu! Vote vote pacari! Vote vote canguçu! Êh!..."

Assim. Vieram muitas caças. Jiguê, reparando. Caicãe atirou a violinha encantada por aí, pegou num porrete e foi matar todo aquele poder de caças que esta vam feito bobas. Então Jiguê roubou a violinha do feiticeiro Caicãe que nunca teve mãe.

Mais pra diante cantou que nem tinha escutado e veio um dilúvio de caça parando na frente dele. Jiguê voltou carregado pra tapera depois de esconder a violi nha na raiz de outro cipó. Todos tornaram a se espan tar e comeram bem. Macunaíma tornou a desconfiar.

No outro dia esperou com o olho esquerdo dor mindo que Jiguê partisse, foi atrás. Descobriu tudo. Quando o mano voltou pra tapera Macunaíma pegou na violinha, fez talequal reparara e veio uma imundície de caça, viados cotias tamanduás capivaras tatus aperemas pacas graxains lontras muçuãs catetos monos tejus queixadas antas, a anta sabatira, onças, a onça pinima a papa-viado a jaguatirica, suçuarana canguçu pixuna, isso era uma imundície de caças! O herói teve medo daquela bicharada tamanha e saiu numa carreira mãe pinchando a violinha longe. A gaiola enfiada no braço dele ia batendo nos paus e o galo com a galinha faziam um cacarejo de ensurdecer. O herói imaginava que era a bicharia e disparava mais.

A violinha caiu no dente de um queixada que tinha umbigo nas costas e se partiu em dez vezes dez pedaços que os bichos engoliram pensando que era gerimum. Os pedaços viraram nas bexigas das caças.

O herói estourou tapera a dentro feito um desespe rado botando os bofes pela boca. Nem bem pôde res pirar contou o sucedido. Jiguê teve ódio e falou: - Agora que não caço nem pesco mais! E foi dormir. Todos principiaram curtindo fome. Bem que pediam porém Jiguê pulava na rede e fechava os olhos. O herói jurou vingança. Fingiu um anzol com presa de sucuri e falou pro feitiço: - Anzol de mentira, si mano Jiguê vier experi mentar você, então entra na mão dele.

Jiguê não podia dormir de tanta fome e enxer gando o anzol falou pro mano: - Mano, esse anzol é bom? - Xispeteó! Macunaíma fez e continuou lim pando a gaiola.

Jiguê decidiu ir numa pescaria porque estava mes mo curtindo fome, falou: - Deixa ver si anzol é bom.

Pegou no feitiço e experimentou na palma da mão. O dente de sucuri entrou na pele e despejou todo o veneno lá. Jiguê correu pro matinho e bem que mastigou e engoliu maniveira, não vale de nada. Então foi bus car uma cabeça de anhuma que fora encostada em pi cada de cobra. Pôs na mão. Não valeu de nada. Ve neno virou numa ferida leprosa e principiou comendo Jiguê. Primeiro comeu um braço depois metade do corpo depois as pernas depois a outra metade do corpo depois o outro braço depois o pescoço e a cabeça. Só ficou a sombra de Jiguê.

A princesa teve ódio. É que ela andava ultima mente brincando com Jiguê. Macunaíma bem que per cebeu porém imaginou: "Plantei mandioca nasceu maniva, de ladrão de casa ninguém se priva, paciên cia! ..." E tinha encolhido os ombros. A princesa raivosa falou pra sombra: - Quando o herói for passear de fome você vira num cajueiro numa bananeira e num churrasco de viado.

A sombra era envenenada por causa da lepra e a princesa queria matar Macunaíma.

No outro dia o herói acordou com tanta fome que foi espairecer passeando. Topou com um cajueiro cheio de frutas. Quis comer porém presenciou que era a sombra leprosa e passou adiante. Légua e meia depois topou com um churrasco de viado fumegando. Já estava roxo de fome porém pôs reparo que o chur rasco era a sombra leprosa e passou adiante. Légua e meia depois topou com uma bananeira carregadinha de pencas maduras. Mas agora o herói já estava que vinha vesgo de tanta fome. A vesgueira fez ele enxergar dum lado a sombra do mano e do outro a bananeira.

- Arre que posso comer! fez.

E devorou todas as pencas. E as bananas eram a sombra leprosa do mano Jiguê. Macunaíma ia morrer. Então se lembrou de passar a doença nos outros pra não morrer sozinho. Pegou numa formiga saúva e es fregou bem ela na ferida do nariz, formiga já foi gente que nem nós e a saúva ficou leprosa. Então o herói agarrou a formiga jaguataci e fez o mesmo. Jaguataci ficou leprosa também. Então foi a vez da formiga aqueque devoradora de sementes e da formiga guiquém, da formiga tracuá e da formiga mumbuca bem preta, todas ficaram leprosas. Não tinha mais formigas em redor do herói sentado. Ele ficou com preguiça de es tender o braço porque já estava moribundo. Esperou a visita da saúde, criou força e pegou no mosquito birigüi mordendo o joelho dele. Passou a doença no mosquito birigüi. Por isso que agora quando esse mosquito morde a gente, entra na pele, atravessa o corpo e sai do outro lado enquanto o furinho de entrada vira na bereva medonha chamada chaga-de-Bauru.

Macunaíma tinha passado a lepra em sete outras gentes e ficou são no sufragante, voltando pra tapera. A sombra de Jiguê conferiu que o herói era muito inte ligente e quis voltar desesperada pra junto da família. Era já de-noite e se confundindo com a escureza a som bra não achava mais o caminho perto. Sentou numa pedra e berrou: - Foguinho, cunhada princesa! A princesa coxeando muito porque estava doente de zamparina veio com um tição aluminando caminho. A sombra engoliu o fogo e a cunhada. Berrou de novo: - Foguinho, mano Maanape! Maanape veio logo com outro tição alumiando ca minho. E se arrastava molengo porque barbeiro chu para sangue dele e Maanape estava opilado. A som bra engoliu fogo e mano Maanape. Berrou: - Foguinho, mano Macunaíma! Queria engolir o herói também mas Macunaíma percebendo o que sucedera pro mano e pra companheira encostou a porta e ficou bem quieto na tapera. A som bra pedia foguinho, pedia porém não recebendo res posta se lastimou até madrugada". Então Capei apare ceu iluminando a terra e a leprosa pôde chegar na tapera. Sentou na cangerana da soleira e esperou o dia pra se vingar do mano.

De-manhã inda estava acocorada ali. Macunaíma acordou e escutou. Não se ouvia nada e ele concluiu: - Arre! Foi-se! E saiu passear. Quando passou pela porta a sombra trepou no ombro dele. O herói não maliciou nada. Estava padecendo de fome porém a sombra não. deixava ele comer. Tudo o que Macunaíma pegava ela engolia, tamorita mangarito inhame biribá cajuí guiambê guacá uxi ingá bacuri cupuaçu pupunha tape-rebá graviola grumixama, todas essas comidas do mato. Então Macunaíma foi pescar porque agora não tinha mais ninguém que pescasse pra ele não. Mas cada peixe que tirava do anzol e jogava no paneiro, a som bra pulava do ombro, engolia o peixe e voltava pro poleiro outra vez. O herói matutou: "Deixa estar que te arranjo!" Quando peixe pegou, Macunaíma fez um esforço heróico, deu um bruto arranco na vara de for mas que o impulso fez o peixe ir parar lá na Guiana. A sombra correu atrás do peixe. Então Macunaíma gavionou mato fora no sentido oposto. Quando a sombra voltou, não achando mais o mano disparou no rasto dele. Depois de correr um pouco, atravessar a terra dos índios tatus-brancos e pegar um susto tama nho que passou sem pedir licença entre a sombra de Jorge Velho e a sombra do Zumbi que estavam dis cutindo, o herói fatigadíssimo, olhou pra trás e viu que a sombra já vinha chegando. Estava na Paraíba e tão sem vontade de chispar que parou. Era por causa do herói estar impaludado. Perto havia uns trabalhadores destruindo formigueiros para construir um açude. Macunaíma pediu água pra eles. Não tinha nem gota porém deram raiz de umbu. O herói matou a sede dos legornes, agradeceu e gritou: Diabo leve quem trabalha! Os trabalhadores estumaram a cachorrada no he rói. Isso mesmo que ele queria porque teve medo e chispou bem. Na frente abria a estrada das boiadas. Macunaíma isso vinha que vinha acochado pela som bra, nem turtuveou: meteu pelo estradão. Mais adiante estava dormindo um boi malabar chamado Espácio que viera do Piauí. O herói deu um trompaço nele de tanta fúria. Isso o boi saiu numa galopada louca de susto e lá foi cego manadeiro abaixo. Então Macunaíma que brou por uma picada sem jeito e se amoitou por de baixo dum mucumuco. A sombra escutava a bulha do marruá galopeando e imaginou que era Macunaíma, foi atrás. Alcançou o boi e pra não perder a pernada fez poleiro no costado dele. E cantava satisfeita: "Meu boi bonito, Boi Alegria, Dá um adeus Pra toda a família!

ôh... êh bumba, Folga meu boi! Ôh... êh bumba, Folga meu boi!"

Porém nunca mais que o boi pôde comer, a sombra engolia tudo antes do bicho. Então o marruá foi fican do jururu ficando jururu magruço e lerdo. Quando passou pelo rincão chamado Água Doce perto de Guarapes, o boi mirou sarapantado bem no meio do areão a vista linda, um laranjal cheio de sombra com a ga linha ciscando por baixo. Era sinal de morte... A sombra desenganada cantava agora: "Meu boi bonito, Boi desengano, Dá um adeus, Até para o ano!

- ôh.-.. êh bumba, Folga meu boi!" ôh... êh bumba, Folga meu boi!

No outro dia o marruá estava morto. Foi esverdeando esverdeando... A sombra muito penarosa se consolava cantando assim:

"O meu boi morreu, Quê será de mim? Manda buscar outro, - Maninha, Lá no Bom Jardim..."

E o Bom Jardim era uma estância do Rio Grande do Sul. Então veio vindo uma giganta que gostava de brincar com o marruá. Viu o boi morto,-chorou bem e quis levar o cadáver pra ela.

A sombra teve raiva e cantou:

"Arretira-te, giganta, Que o caso está perigoso! Quem se arretirou amante az ação de generoso!"

A giganta agradeceu e foi-se embora dançando. Então passou por ali o indivíduo chamado Manuel da Lapa carregado de folha de cajueiro e de rama de al godão. A sombra saudou o conhecido: "Seu Manué que vem do Açu, Seu Manué que vem do Açu, Vem carregadinho de folha de caju!

Seu Manué que vem do sertão, Seu Manué que vem do sertão, Vem carregadinho de rama de algodão!"

Manuel da Lapa ficou muito concho com a sauda ção e pra agradecer dançou um sapateado e cobriu o cadáver com a folha de caju e a rama de algodão.

O velho já estava tirando a noite do buraco e a sombra toda confundida não via mais o boi debaixo dos flocos e da folhagem. Principiou dançando à procura dele. Um vaga-lume se admirou daquilo e cantou per guntando:

"Linda pastorinha Que fazeis aqui?"

"Vim buscar meu gado, Maninha, Que eu aqui perdi".

Foi como a sombra secundou cantando. Então o vaga-lume dançando voou do tronco pra baixo e mos trou o boi pra sombra. Ela trepou na barriga verde do morto e ficou chorando ali.

No outro dia o boi estava podre. Então vieram muitos urubus, veio o urubu-camiranga, veio o urubu-jeregua o urubu-peba o urubu-ministro o urubu-tinga que só come olhos e língua, todos esses cabeças-peladas e principiaram dançando de contentes. O mai& grande puxava a dança cantando: "Urubu é passo feio feio feio! Urubu é passo limpo limpo limpo"!

E era o urubu-ruxama, urubu-rei, o Pai do Urubu. Então mandou um urubuzinho piá entrar dentro do boi para ver si já estava bem podre. O urubuzinho fez. En trou por uma porta e saiu por outra dizendo que sim e todos fizeram a festa juntos dançando e cantando: "Meu boi bonito, Boi Zebedeu, Corvo avoando, Boi que morreu.

Ôh... êh bumba, Folga meu boi! Ôh... êh bumba, Folga meu boi!"

E foi assim que inventaram a festa famanada do Bumba-meu-Boi, também conhecida por Boi-Bumbá.

A sombra teve raiva de estarem comendo o boi dela e pulou no ombro do urubu-ruxama. O Pai do Urubu ficou muito satisfeito e gritou: - Achei companhia pra minha cabeça, gente! E vou pra altura. Desde esse dia o urubu-ruxama que é o Pai do Urubu possui duas cabeças. A som bra leprosa é a cabeça da esquerda. De primeiro o urubu-rei tinha só uma cabeça.